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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

   Estou tal como me deitei ontem. Ainda tenho o pijama dos patinhos vestido. É o meu pijama de verão desde a puberdade, quando a minha mania de dormir com o rabo de fora tornou os investimentos em pijamas num capricho de tias-avós. Não arranquei o Transact do braço porque não tinha quem me ajudasse a trocá-lo por um novo; não desamarrei os caracóis e agora o meu cabelo adotou o elástico como mecha honorária. O meu dia não existiu - e é bom que não tenha existido porque foi um dia feito de restos de leite creme e stalking cibernético. Ninguém quer contar um dia destes. Choveu lama, disse a tia ao telefone; esqueci-me do carro na rua e transformei-me na orgulhosa proprietária de um veículo de cor incógnita. Se o vou lavar amanhã? Importa mais que eu me lave amanhã. Fiz uma lista enquanto devorava a terceira taça de gelado do dia, e tomar banho é o segundo item dessa lista; o primeiro é alguma coisa como deixar que me apresentem a tipos simpáticos. Não vai ser nada fácil, mas parece um passo importante para evitar ver-me de novo numa situação em que tenho que incluir o ato de tomar banho numa lista de tarefas. Sempre fugi dos simpáticos; o que haverá de interessante numa pessoa cuja principal característica é algo tão corriqueiro, um quase-requisito de existência em sociedade? E, como não bastasse a simplicidade do carácter, estes mártires da idiopatia também tendem a ser feios. Não tenho idade para namoriscar gente malparecida, e recuso fingir-me imbecil ao ponto de considerar fútil uma decisão dessas; sim, assumo-me como uma gaja horrível, mereço comer emocionalmente, e melhor seria que o leite creme estivesse estragado. Concordo com tudo o que vos faça felizes. O que realmente interessa é que estou recetiva às novas oportunidades: para mim, para eles, para a Sagres. Amanhã, quando sair do duche, tudo vai estar magicamente resolvido na minha cabeça.