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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

   Analisemos as condições da minha futura habitação, lá longe, no estrangeiro que mais gozo vos dá detestar. Primeiro, convém dizer que encontrar um espaço de dimensões superiores às de um cubículo de uma casa-de-banho pública, bem localizado e com uma renda justa foi tarefa para causa uma hecatombe neuronal; o tempo passava e eu estudava os sem-abrigo com curiosidade crescente, imaginando-me a fazer da estação de comboio a minha casa. Felizmente, a minha avó acendeu umas velinhas; eu chorei um bocadinho, agucei a arte de ser amorosa e interessante noutras línguas, chorei mais um bocadinho. Espera-me um apartamento no terceiro andar do número dois da rua S, nada mais nada menos que uma bifurcação da rua das lojas. Vou ter ao lado de casa as capelinhas do costume, e mais vitrinas que por lá tenham nascido desde a última vez; inédito!: a loja mais próxima da minha atual residência é um cãobeleireiro. [Note-se que falamos de uma vila onde é impossível encontrar bens essenciais, como cardamomo, mas onde os cães usam espuma no pelo]. Mas não é daqui que há de nascer o desastre financeiro. Fui à compras pela última vez em maio e só trouxe um macacão (o qual, diga-se, faz grandes favores pelos meus glúteos). O problema é que há uma MAC ao virar da esquina, e para mim, resistir ao apelo da maquilhagem é muito mais difícil que deixar um vestido no cabide. Vou substituir a minha tendência para comer emocionalmente por uma nova compulsão: a de comprar batons quando estou triste. Chove muito naquela cidade, por isso vou estar triste muitas vezes. A desgraça aguarda-me. Isso é bom: o artista (eu) deve debater-se contra demónios internos (confere) e adições terríveis.