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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

   Quando marquei as minhas férias de Natal, nos idos fins de Setembro, fiquei mais que feliz ante a possibilidade de ter 3 semanas no país do coração, com peixinho fresco e broinhas de mel. Arrependi-me nem um mês depois de ter aterrado em Düsseldorf. Passou-se o ponto em que os dias eram contados para trás; com a aproximação da data de início das férias veio a apreensão. O que seria de mim, presa neste canto escuro da sala dos meus pais? A cadeira onde me sento é tão familiar que me abraça e deixa sem ar.

   Trouxe trabalho para casa: entretenimento para dois dias; veio o Natal: ocupações várias, bailado doméstico, corrida às lojas para perdoar o mau gosto. Os meus pais arrastaram-me até à São Silvestre de Lisboa para uma corrida em família, os primeiros 10 km da minha mãe; por amor não adormeci à primeira curva, trotei atrás deles com um dos meus melhores sorrisos. Não voltei a sorrir muito desde esse dia.

   Os meus companheiros de casa já voltaram das suas terras. No sábado recebi uma mensagem muito urgente do Felix. Convenceu-se de que eu chegava mais cedo, queria que abrisse as janelas da casa para a livrar do cheiro a erva, e já agora que escondesse os seus utensílios no meu quarto. Os pais vinham de França com ele no domingo, convinha eliminar todos os vestígios de condutas mais liberais. Acabou por ser o Ilya a tratar de tudo. Fê-lo sozinho: o Klim voltou para Tomsk há dois dias.

   Vou amolecendo de dia para dia. Incho, sofro com a moléstia. Torci o pé no domingo; coxa, fui obrigada a adiar o início dos treinos para a Maratona de Düsseldorf (a incrição foi a minha prenda de aniversário; já tenho voluntários para segurar cartazes). Mas sei como isto é, sei como sou. Vai tudo correr bem. E todas as noites, antes de apagar a luz da mesa-de-cabeceira, recebo uma mensagem: faltam 5 dias; agora 4; hoje 3. E para breve está o dia que acabará com um beijo a sério em vez de um emoji coradinho.