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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

A atleta* malcriada

   No lugarejo onde cresci, as pessoas ficavam muito sentidas quando eu passava por elas a correr e nada dizia. Conheciam-me de colo, e de lhes fugir às beijocas húmidas; agora, trotava rua afora sem o mínimo sinal de reconhecimento. Que má criação, e logo enchiam a cabeça dos meus pais e avós de queixinhas. A verdade é que eu não fazia nada disso de propósito. Quando estou a correr, regresso a uma espécie de estado primitivo onde só me consigo concentrar no movimento, nos obstáculos ao movimento e nos veículos que podem comprometer o movimento passando por cima da pessoa que está a executar o movimento (eu, estou a falar de mim). Não reconheço lugares (se não me perco mais vezes, é por hábito), tampouco caras. Ontem, por exemplo, ao atravessar a praceta empedrada para chegar a casa, comecei a ouvir a campainha de uma bicicleta. Imediatamente soube que tinha que acelerar e desviar-me; nem pensei: acelerei, desviei-me. Mas a campainha continuou a tocar e a bicicleta desviou-se na minha direção. Assustei-me; ó não, mais um idiota a querer passar-me por cima, a querer fazer-me tropeçar, a aproximar-se para dizer qualquer coisa nojenta. Movida pelo hábito, fiz um fantástico sprint quase até à porta de casa; até ouvir um *o meu nome aqui*, WHAT THE FUCK, IT'S ME! O meu pai pode ficar descansado: quando estou a correr, também não reconheço o meu namorado.

 

*desculpem, atleta não é fixe; runner.

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