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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

A Televisão

   Talvez a ideia de arranjar uma televisão para a cozinha tenha sido minha. Eu e o Felix; nós que vamos continuar a morar nesta casa depois de março, estamos empenhados em fazer dela um lugar um bocadinho mais acolhedor. Os quartos são empreitadas individuais, e o meu já conta com alguns enfeites, luzinhas, instalações catitas. Mas a cozinha é de todos. Não temos sala de estar, por isso é na cozinha que nos reunimos. A vontade vai alargando o espaço, planeamos puxar a mesa mais para a frente, talvez rodá-la para nos podermos sentar mais à larga; o frigorífico muda-se para aquele canto, o armário das mercearias para aqueloutro. Infinitos metros quadrados de cavaqueira. Queremos um sofá entalado entre a parede e a bancada, ao lado do quadro colorido que pintei na semana passada. Porque não uma televisão?

   Quem mais senão eu para ter tão absurda lembrança. Estava a fazer fricassé de frango, recordava a receita da minha avó que, imagine-se, tem uma televisão na cozinha. O limão, a salsa, as saudades de casa; tudo muito inconsciente. A cozinha traz um rádio: ninguém o usa; andamos a negociar a compra de umas colunas; para quê uma televisão? Mas alimentou-se a fantasia com os anúncios online de pessoas que as ofereciam. Na altura não percebi o que levava alguém a oferecer uma televisão em perfeitas condições. Foi preciso apanhar o autocarro numa quinta-feira à noite, descer ao pé da casa do Yannick, subir a um quarto andar e encarar um colosso tecnológico do início dos anos 2000. Medidas: exagero de comprimento por abuso de altura. Peso: três quartos de cachalote bebé. Um aparelho que metia respeito.

   Contava com a razoabilidade do Felix para tomar uma decisão. Descobri nessa madrugada — porque não queria dormir, acabei o dia a revirar os armários da cozinha, procurando fazer uma lista dos utensílios que precisávamos de adquirir — que partilhamos as mesmas dificuldades. A assertividade põe-nos de costas em água. Por isso, pegámos na televisão e trouxemo-la escada abaixo. Ainda virámos uma esquina antes de olharmos um para o outro e reconhecermos que nunca conseguiríamos levar o monstro para casa. Até chegar à paragem de autocarro, a uns escassos 50 metros de distância, me parecia impossível; a mim, que já fiz coisas tão estúpidas como correr uma maratona. Lembrava-me disso sempre que tentava voltar a pegar na televisão: com luvas, sem luvas; mãos por baixo, mãos de lado; horizontal, vertical; direito, avesso. Os meus braços tremiam, quase não os sentia.

   Não sabíamos do Ilya há dois dias (e ficaríamos até sábado à noite sem qualquer notícia), o Yannick tinha ido escalar. Sozinhos, não havia maneira de transportarmos a televisão até casa. Nem precisávamos de refletir sobre as dimensões absurdas do aparelho, no facto de não termos sequer onde o pôr, por muita que fosse a nossa vontade; embora desconhecêssemos que vontade era essa realmente, se era um reflexo, uma memória, um tempero, ela existia e culpava-nos. Aquela caixa enorme pousada no passeio, os tons cinzentos de tudo o que nos envolvia, até a noite; troçava de nós. Para mim, foi a gota de água. Desisti; era tudo o que o Felix precisava para desistir também. Mandado pela cortesia, voltou ao quarto andar para anunciar o nosso insucesso. Disseram-lhe que deixasse o mamarracho no passeio, que também não o queriam. Bem vistas as coisas, fizemos um serviço de transporte gratuito que me custou uma valente dores de costas. De troco, uma lição sobre a importância de dizer nein, mais uma, que eu sou dura de miolo e cheguei tarde aos ensinamentos mais básicos.

   Esperámos até ter a certeza que todas pessoas que nos viram a carregar a televisão se tinham ido embora. Os dois trucos que passeavam o buldogue foram os últimos a abandonar a cena. Depois, corremos rua a abaixo. Acabámos por caminhar até casa. Íamos leves.

 

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