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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Alcântara 11/12

   É curioso que um dos períodos mais difíceis da minha vida (um dos primeiros, visto que prevejo a ocorrência de outros tantos; sou praticamente uma criança) tenha coincidido com as noites mais memoráveis da minha vida - e estranho que eu nunca tenha escrito nada sobre isso. Se eu tivesse seguido as normas do comportamento descontrolado - ou de qualquer ato movido pelo desespero profundo que é sentir nada, ser nada - não usaria a palavra memorável para descrever as noites (que pareciam dias, que se transformavam em dias): lesse eu o manual e nunca me lembraria delas. Mas mesmo quando me porto mal, porto-me bem, agora e sempre; não sabia como fazer algo verdadeiramente errado, apenas conhecia os passos simples para a detonação de uma bomba invisível - e são passos quase inofensivos, os de quem não tem a ideia do que está a fazer. Segundo alguns taxistas, eu era demasiado bonita para andar metida naquelas coisas. Juro que não sei o que eram aquelas coisas. Eu tinha a minha cena e a minha garrafa de água (bem pessoal e intransmissível); de mim fugia a responsabilidade pelo que se passava à volta. Talvez nunca tenha estado tão perto de tocar numa pessoa morta  do que nessa altura. Chutava as massas de carne húmida do caminho da casa-de-banho e ficava a vê-las dobrar como plasticina. Estavam escondidas dentro de si próprias; toda a gente assim aninhada, talvez porque para a maioria isso fosse uma experiência nova. Para mim não. O que eu queria era observar;  ser não é fundamental quando há tantas pessoas estranhas à volta, tantas realidades onde me diluir. Além disso, o meu gosto por movimentações rítmicas e bamboleios  supera em muito o talento para a dança: os ambientes escuros favoreciam-me.

   [De onde veio a lembrança? Sim, da música; a música é posterior aos acontecimentos, mas o espírito é o mesmo, sempre. Talvez me feche no quarto, às escuras com isto a tocar, durante grande parte do fim-de-semana. Não tenho saudades, mas tenho saudades.]