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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Bar #1

   Mal o olhei, jurou que me conhecia. Não era golpe ou má arte; a reação genuína, atrapalhada e confusa, como se aguardasse a revelação de um segredo, sem saber se era seguro admitir que já o conhecia. Cria que eu trabalhava num bar no Bairro Alto; reconheceu-me, apontou-me; disse um nome do qual já não me recordo. Os outros olharam para mim, maior a curiosidade que a dúvida: se havia alguém capaz de ter criado uma vida paralela — ou duas, como alguns desconfiavam —, esse alguém era eu.

   — Eu nunca trabalhei num bar no Bairro Alto.

   — Tens a certeza?

   Explicar-lhe — ali! — que servir bebidas estava longe de ser a sinecura que procuro seria como regar um cato. Pessoas simples interessam-se por respostas igualmente simples; mais do que as minhas justificações, ele procurava a solidez de um monossílabo. Não que eu fizesse algum esforço para lhe interessar. Alto, sim, mas pouco composto, excessivamente simétrico; não devia ficar bem arranhado. A perplexidade com que repetia a pergunta, qual mantra, qual oração, qual desejo esperado por via de crendices infantis, oferecia espaço ao aborrecimento. Parecia incapaz de ultrapassar a sua narrativa; não estava desapontado, apenas preso. Tinha a minha idade, e eu soube-o mesmo sem perguntar.

   — Ela é igual a ti!

   — Não, não é. — Procurei a pausa dramática no último gole de cerveja. Com ele, podia fazer isso sem me tornar demasiado ridícula; era até importante cair num lugar comum para poder voltar atrás uma última vez antes de desaparecer na curva. — Eu sou mais gira.

   Disse-o sem manias. Ele percebeu. Despido da cretinice de matilha, não era estúpido nenhum.

 

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