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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Constipações

   Pronto, eu admito: os astros voltaram a alinhar-se daquela forma esquisita e eu não sou eu, sou uma sombra, sou um espectro; sou uma massa amorfa, carne-ossos-sangue, e só faço sentido enquanto máquina fisiologicamente funcional - e mesmo aí, certas partes começam a alterar-se, a desistir. O resto, com muita pena minha (e de quem se vê obrigado a lidar comigo mais do que duas horas por dia) fodeu-se; é preciso recuar um ano para encontrar um episódio de gravidade semelhante. Não corro desde domingo passado; andava a fazer mais de 50km por semana, as minhas long runs já tinham batido nuns extraordinários 30 km e, quase de repente, puff!; nem as aulas de grupo no ginásio; nem os treinos de trail, que eram um dos momentos mais divertidos da minha semana, com as descidas técnicas atacadas às traseiras e os assaltos aos pomares da zona. Também não consigo escrever - pelos menos, não da forma que quero: este texto é uma merda, o texto anterior é uma merda, saltitamos pelo passado recente apoiados em montículos de merda.

   E já nem importa o que me trouxe até aqui; o acontecimento que despoletou esta crise quase se perde no tempo. Olho para ele sem qualquer emoção. Adormeci-o; adormeci as consequências, e creio mesmo que a solução seja um nado-morto. A questão inicial deixou de ser a única questão pertinente; a sua força distribuiu-se por todas as outras questiúnculas, que juntas parecem uma ameaça gigantesca. Sinto um medo profundo, paralisante. As decisões erguem-se num obstáculo intransponível, e eu encolho os ombros; escondo-me debaixo dos lençóis; devoro pacotes de bolachas porque não consigo distinguir o que é ter fome do que é estar satisfeita. Aproveitei o fim-de-semana para não tomar banho; as pessoas deprimidas cheiram mal.

   Conheço este quadro demasiado bem. Ainda que não consiga evitar render-me a estes estados, pelo menos tenho a perspetiva de quem já lidou com tudo isto mais do que uma vez. A minha sentença é a de me equilibrar sobre a trave por tanto tempo quanto viva. Tenho-o escrito; por outras palavras, é certo: mais técnicas, menos bonitas. Encaro isto como, sei lá, uma constipação. Estou emocionalmente constipada. Não são ataques de choro, são espirros mentais.

   Escrevo este tipo de coisas para me convencer a mim própria de que tudo vai ficar bem; torno-as públicas porque sei que não sou a última bolacha do pacote (!): haverá por aí quem se reveja nas minhas palavras. Além disso, cheguei a um ponto em que perdi o receio de reconhecer os meus monstros; eles fizeram de mim o que sou; se eu escrevo, é por causa deles. Não estou à procura de palmadinhas nas costas. Isso não resulta. O que resulta é meter-me debaixo do chuveiro. Sei que muitos dos que lerem este texto não vão compreender a dificuldade de tomar um banho. Ainda bem; para mim, significa tentar viver outra vez.

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