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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Correr é fixe

   Foi com uma ressaca colada aos Cornos - nome carinhoso de duas borbulhas pubescentes que me nasceram na testa - que saí de casa para correr durante quase duas horas. Pelo caminho encontrei uma nuvem cujo aguaceiro cumpriu a função de ensopamento de modo extraordinariamente eficiente; o meu iPod Nano, já com idade para saber ler, sobreviveu por obra e graça daquele tipo de divindade que gosta do Stephen Malkmus. Cruzei-me com colónias de poças e atravessei-as com a destreza de várias preposições e contrações de preposições. Vindo do canto superior esquerdo do mapa, o total de quedas aproximou-se de zero; escorregadelas e impropérios tenderam para infinito. Fiz cara feia a/olhei para dois cães de porte médio que se achavam no direito de provar os meus quadricípetes: não!, vão ladrar para aqueles calções fluorescentes que vêm atrás de mim, disse eu, e eles foram. (Eu vi muitos episódios do Encantador de Cães.) Quase no fim do treino, meti-me num túnel de vento que cheirava a pipis; o Jeff Mangum berrava o seu amor a Jesus Cristo e eu pensava que aquele era o primeiro momento em mais de uma década no qual eu poderia realmente vomitar. E assim, distraída pelos sinais de um Universo que me odeia, pus finalmente um dos pés num campo de férias de rãs estrábicas. A língua enrolou-se numa evocação genital e duas velhotas estudaram-me o rabo com cruxifixos na mão. Subi para casa. O meu fígado ronca quando ri e tem halitose. Já não estou ressacada.