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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Correr é fixe - e não só

   Aos que quiserem transformar a minha experiência em verdade universal, ofereço o relato abreviado do processo que conduziu aos meus primeiros dez quilómetros sub-hora; fá-lo-ei como um guia que podem seguir se assim vos aprouver (embora tal não seja aconselhável: eu sou eu, vocês são vocês, por muito que tal facto vos entristeça).

   O primeiro passo é odiarem-se*, de dentro para fora e de fora para dentro; odeiem a imagem refletida no espelho do corredor e que vos é impossível ignorar porque as dimensões do espelho são astronómicas, e a sua impertinência é constrangedora; odeiem a ideia por trás dessa imagem, e as ideias por trás dessa ideia, e o conjunto todas as vossas formulações mentais;  odeiem o que foram, o que são e a perspetiva daquilo em que se irão transformar; odeiem pensar em tudo isto. Certifiquem-se que é ódio, não uma ligeira antipatia ou uma disposição quezilenta, fruto do vosso ciclo menstrual ou de uma eventual obstipação. [Falando em obstipação, é importante que exercitem o cólon antes de sair de casa. Aproveitem para se odiarem ainda mais enquanto fazem força.]

   Depois, saiam de casa e corram. Correr é absurdamente simples: precisam somente de duas pernas, um sistema cardiovascular e impulsos neurais. Quis o vosso deus, se o houver, que a esmagadora maioria dos seres humanos nascesse com todo este equipamento, e que usá-lo fosse gratuito**: façam-lhe a vontade. Coloquem o vosso peso num dos dois sistemas perna-pé que habitualmente usam para se locomoverem. Estendam a perna oposta de modo a observarem o vosso pé além do umbigo e, com um pequeno salto, transfiram o peso de um pé para o outro. A substituição da base de apoio deve vir acompanhada de um saltinho, e o saltinho de uma ligeira flexão do joelho, para propósitos de amortecimento. Acompanhem o movimento com um balanço braquial alternado: vocês correm, os vossos braços dançam o twist. Depois, é só repetir o processo e usufruir do privilégio que é poderem deslocar-se. A velocidade com que o fazem dependerá do comprimento máximo da diferença entre a posição dos dois pés e do número de vezes que repetem o movimento por unidade de tempo.

   Se correr não for suficiente para entreter os sentidos (porque é tão simples, orgânico), oiçam música - dos passarinhos ou do vosso telemóvel (sem vergonha por, ao quilómetro oito, de coração perdido e vias respiratórias bem emporcalhadas, ser a Iggy Azalea a estender-vos mão - e vocês atiram vários who dat, who dat para um grupo de jovens canas); observem a forma como as linhas do caminho em que seguem se juntam num ponto infinito que não existe realmente; cheirem a terra seca, a terra molhada, o asfalto. Experimentem observar a forma como as vossas pernas são refletidas por uma montra: como são tão majestosas enquanto se embrenham nesse ato de correr; como parecem eternas e brilhantes sob a luz tímida do sol; como são vossas e como vocês as conseguem mover tão síncronas e eficazes - se estiverem com atenção nesta parte, nem vão levar a mal que alguns carros abrandem propositadamente olhar para essas pernas***.

   No fim, quando o relógio vibrar no vosso pulso, descubram que correram como nunca antes**** e sintam-se fantásticos. Vão tossir violentamente, e cuspir como velhos, e chiar como asmáticos que são; mas nesse momento vão também atrever-se a gostar muito de vocês. Aproveitem o momento: não é sentimento que dure, e vocês sabem-no; mas tão habituados estão à repulsa que a mudança é preciosa.

 

*psicologia positiva é para pussies.

**salvo despesas com o combustível, manutenção e impostos.

***houve mesmo um carro que, depois de mudar de mão, quase parou ao meu lado. Esta situação foi um bocadinho estranha, mas o resto foi inofensivo; na maior parte dos casos, era apenas curiosidade.

****56:24 (eu comecei a correr no final de Novembro).

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