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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Cozinhar

   Surpreendeu-me descobrir que gosto de cozinhar para outras pessoas. Quando janto sozinha, não janto de todo. Aldrabo a refeição, assalto o frigorífico à toa: iogurte, fruta, cereais tirados diretamente do pacote, munchies* que trago de Vaals ao domingo. Não tenho paciência para cozinhar apenas para mim. Mas quando quero fazer algum petisco para os meus flatmates; quando convido alguém para jantar; quando as duas situações se juntam, porque os amigos que fiz aqui são os amigos dos meus flatmates, aí não me importa passar um dia inteiro na cozinha. Sei bem que isto não me deve ser exclusivo, haverá por aí muita gente com semelhantes disposições. Mas eu sou uma reconhecida besta; e logo eu teria que descobrir em mim o prazer de alimentar os outros? Apagado o fogão, nem quero saber se o tacho é virado ao contrário em cinco minutos sem que uma migalha me aterre no prato - situação frequente quando se cozinha numa casa cheia de homens que subsistem numa dieta de massa e sandes de queijo. Fico contente de os ver repetir a dose, como uma figura materna. Lembro-me várias vezes da minha avó, da insistência com que me empurra a comida para o prato, e às vezes, assusto-me. Olho para mim, pessoa estranha, e penso se isto é consequência dos valores sulistas com os quais cresci, ou se sou mesmo capaz de sentir carinho por algumas pessoas. Mesmo que elas sejam desregradas consumidoras de marijuana, mesmo que sejam vegetarianas ou que não apreciem particularmente Futurama.

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*É verdade: os snacks holandeses, em particular bolos e bolachas, são os melhores de sempre. Associar este facto à situação legal das drogas leves do país é trivial.