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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

E vivam a república, os velhotes e as constipações*

   Ouvi algumas pessoas queixarem-se da confusão nas secções de voto. Eu não esperei em fila nenhuma. Em menos de três minutos, deixei o cartão de cidadão em cima da urna, espalhei micróbios na canetinha, dobrei o papelinho e segui caminho. O processo teria sido mais expedito se não me visse obrigada a ouvir os protestos de um reformado muito revoltado por não poder votar no mesmo sítio que eu. Ao ver-me passar pela fila de pessoas que esperavam à porta da secção de voto nº 3, arrancou do seu posto, ultrapassou-me com maus modos e exibiu os cartões. O senhor não vota aqui. O quê? Porque é que uns votam aqui e outros têm que ir para a fila? À secção de voto nº 3 estavam atribuídos os números de eleitor mais baixos; na secção de voto nº 4 votava apenas quem tivesse assistido ao colapso da União Soviética agarrado à mama da mãe: gente que não costuma votar antes de almoço, daí a drástica redução do tempo de espera. Mas porquê, mas porquê, continuava ele. O homem só arredou pé dali quando os cantos da boca se fizeram tão brancos quanto a coroa de cabelos que usava. Devia ser um daqueles velhotes ao quais sentimos a obrigação de pedir desculpa por termos comido mais que batatas na infância; daqueles que encaram com assaz gravidade o desconhecimento dos nomes dos principais afluentes do Tejo. Saiu calado, mas antes disso, enquanto eu metia o papelinho na urna, lançou-me um olhar de profundo desdém: eu, naquele momento representante da ignominia de se ser jovem e capaz de ler o que está afixado nos vidros das portas.

 

*faltam duas semanas para maratona, logo eu tinha que me constipar (e ser obrigada a perder um ou dois treinos: os meus brônquios asmáticos enlouquecem quando me constipo). A constipação do taper. Já é regra.

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