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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Flatmates #1

   Descobriram que gosto de ler.

   O Ilya ficou muito espantado quando lhe falei da impressão que Crime e Castigo deixou em mim quando o li. Justifiquei-me dizendo que, ao contrário dele, ninguém me obrigara a ler o livro na escola. Li-o porque quis. Sabia que ninguém avaliaria os meus julgamentos com uma caneta vermelha, estava livre para retirar todos os significados que quisesse, e deixar estar os outros. Fica-nos sempre uma ligeira aversão aos autores que nos impingem dessa forma, concluí, e para confirmar o meu argumento, deixei que o Felix dissertasse sobre o ódio que tem à distimia de Chateaubriand. Fucking boring, remata, no seu sotaque de Boston; quando questionado sobre crescer dos dois lados do Atlântico, Felix diz considerar-se mais americano do que francês. Quis a sorte que frequentasse o ensino secundário em Lyon, só isso. Admite que não tem hábitos de leitura em nenhuma das línguas. Ilya, o moscovita, também não: perdeu-os quando começou o mestrado. Ainda assim, trouxe com ele um exemplar de Ulisses; foi buscá-lo ao quarto depois de trazer Finnegan's Wake para a conversa. Conclusão: os franceses são chatos, os irlandeses são malucos (e os russos são os melhores; Ilya mandou-me ler Turguéniev: «it's on my list», «it should be!»). Falei-lhes de Pessoa, para a troca; mas mais espantados ficaram com o valor ordenado mínimo português, discutido a altas horas num quarto gelado, as janelas todas abertas para o cheiro a erva sair.