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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Ler qualquer coisa

   Descobrir pessoas que se dizem grandes leitoras sem saber estruturar uma frase, ou cometendo erros ortográficos demasiado frequentes para passarem por distrações, é coisa para me acelerar as alergias. Sei que para se escrever bem é preciso ler coisas que estejam bem escritas; e ao falar de coisas bem escritas não estou a distinguir as verborreias estandardizadas que por aí pululam das obras-primas, ou das obras-não-tão-primas mas cuja qualidade não compromete. Até o mais nauseabundo cliché, apresentado na sua forma mais simples, conhece um sujeito, um predicado, e todas as quinquilharias que se inventam a seguir; pensar mal, ou discorrer sobre teorias de cassete, não implica um desconhecimento da ortografia capaz de me envergonhar aos 12 anos - e note-se que, com essa idade, eu escrevia agrícola com u.

   Para não duvidar dos autointitulados leitores, sou obrigada a assumir que há por aí muito editor a dar-lhe forte no ácido. Ainda assim, assumindo que as prateleiras mais baixas estão cheias de frases feitas através métodos de geração aleatória, espanta-me a inércia do leitor. Não acredito que uma pessoa NUNCA tenha sido confrontada com um texto bem escrito em toda a sua vida. Durante doze anos, a escola meteu-mos pelos olhos adentro por forma a que, quando ficasse por minha conta, soubesse, pelo menos!, redigir um email. É possível que o processo falhe com outras pessoas (pelas mais diversas razões); mas quem se passeia voluntariamente pela centenas de milhar de caracteres mal organizados, malabarismos sintáticos e perversões à língua - porque se escrevem dessa forma, então presumo que aquilo que leem tome também essa forma - não nota a diferença? Conseguem perceber o que lá está? Aquilo faz sentido? Como?

   Por um mundo melhor, um mundo onde a comunicação escrita não me faça ter vontade de espetar uma caneta em cada olho: ler qualquer coisa não chega. Por mais que repitam uma tarefa ou um exercício, se as repetições forem sistematicamente mal executadas, o objetivo não será cumprido; ninguém aprende nada; o defeito persistirá e as coisas ver-se-ão encurraladas pela triste névoa da ignorância. Ler qualquer coisa torna-se por vezes tão tóxico quanto não ler nada. E isto vai além do género, da qualidade literária, do gosto pessoal. Essa é outra conversa. Eu também tive a minha quota de maus livros, e alguns nem me pareceram maus enquanto os estava a ler -só depois, quando descobri os bons. Defendo o direito aos romances de pacotilha, contanto que as regras básicas do português sejam respeitadas e que me deixem continuar a julgar quem os lê (sim, eu continuo a ser um ser humano desprezível!).

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