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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

O Talão

   Há uns anos que mora cá em casa uma edição do Bel-Ami, daquelas da Biblioteca Visão. Não me lembro se o comprei numa Feira do Livro ou num alfarrabista. Foi quase dado, isso garanto; é feio, tem as páginas cheias de manchas amarelas e cheira a asma (o tipo de livro que me mataria no jardim-escola). Talvez tenha sido essa a razão por trás do meu esquecimento — ou então, triste que andava nesses dias com a leitura de Madame Bovary (livro ao qual, dizem!, terei de voltar quando estiver a uma jarda dos quarenta), achei-me bem aviada de franceses por algum tempo. O livro ficou arrumado entre documentos técnicos, aborrecidos, cheios de números e letras a fingirem-se de números. Dei com ele por acaso, enquanto selecionava companhia para a viagem e para os dois meses que vão da próxima terça até ao Natal, e pensei: porque não? É uma bela obra, estou a gostar muito

  Mas como não bastasse a novela, fiz uma descoberta entre as páginas 124 e 125: um talão de supermercado. E muito me intriga este papelinho. A letra arroxeada, comida pelo tempo, diz que aquela compra foi feita a 22 de agosto de 2012. Ora, pelos meus cálculos, exatos nas datas como em nenhum outro contexto, comprei o livro no início do verão de 2012. O talão deveria ser meu… Só que não é. O primeiro facto a prová-lo é a cadeia de supermercados onde a compra foi feita: um Minipreço. O Minipreço mais próximo de minha casa fica a mais de 10 km. Nem nunca lá pus os pés. Depois, atentem nos artigos: uma caixa de gelado de stracciatella, uma garrafa de sangria e um pacote de pensos higiénicos. O único artigo em comum entre esta lista e a minha lista de produtos fundamentais para existir enquanto fêmea menstruada é apenas o pacote de pensos. De resto, sobrevivo a analgésicos ultrapotentes, chocolate amargo e bebidas brancas. Aliás, no dia em que me virem a comprar sangria no Minipreço, chamem a polícia: ou fugi da ala psiquiátrica ou estou muito precisada de me mudar para lá.

   É possível que o talão tenha pertencido à D... . A D... era minha amiga no verão de 2012. Estava comigo quando comprei o livro. Já o lera, disse-me maravilhas acerca da obra; agora que o escrevo, recordo terem sido as palavras delas que me levaram a comprá-lo. Um ano depois, a D... desapareceu. Estranho caso, esse; normalmente, sou eu que desapareço, mas a ela não me deu tempo para isso. Éramos muito parecidas, eu e ela: depressivas, desconfiadas; snobes, apreciadoras de romances russos. Recordo-a com respeito, pelo que fizemos e pela forma como cortámos laços. Aceno às memórias. Éramos demasiado parecidas, de facto. Nunca me passaria pela cabeça que ela gostasse de gelado de stracciatella ou que cedesse à sangria barata. Também nunca lhe passaria pela cabeça que eu fosse correr uma maratona, por isso estamos quites.

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