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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Outra rant:

   Fui comprar mais livros quando devia investir num novo par de calções; e amanhã farei a derradeira visita à Feira para trazer mais uns quantos. Comprar livros mitiga esta miserabilidade de fim de primavera - é o que comprar roupa faz por outras pessoas, suponho; pessoas normais; gajas normais, diria a malta responsável pela interpretação do Concerto Para Buzinas nº5, a peça mais popular sempre que visto os meus calções velhos. Os calções estão prestes a ser elevados à categoria de uniforme, por isso é que preciso de comprar uns novos. Ontem saí à rua de calças e fui logo recordada do motivo pelo qual passei as últimas duas semanas de pernas ao léu. Tenho calor!, e descobri que é mais fácil ignorar as buzinas, os ruídos, os piropos e as eventuais perseguições do que usar calças quando o mercúrio sobe desta forma.

   Mas não gostei de ter chegado a esta conclusão porque a dita cuja assenta num facto terrível: habituei-me ao assédio por lidar com ele desde que perdi os dentes de leite. Escolho o desconforto do meu género por ser um bocadinho mais suportável que sentir as pernas cozinhadas em papelote - quando, idealmente, não devia ser obrigada a escolher nada. Eu nunca devia sentir-me incomodada, muito menos ameaçada, pelo facto de ser uma mulher. As minhas pernas nuas não são um convite; as pernas de uma mulher, de uma rapariga; as pernas de uma menina. A prova de que isto não é uma coisa inofensiva, ou uma demonstração da tipicalidade ibérica, é o facto de ser capaz de recordar o primeiro piropo que ouvi: tinha doze anos e ia a caminho da escola. Estava atrasada para a aula de Francês e fui assustada com um oh boa! vindo de uma moradia em obras. Sei exatamente como me senti na altura: a sensação replicou-se em todos os oh boa! que ouvi desde aí.

   E não usar calções não é a solução. Acima de tudo, eu sou um ser senciente: tenho calor, tenho frio, tenho membros que reagem ao calor e ao frio; ocasionalmente como caracóis; e compro muitos livros. Faço o que me apetece, e o que mais faltava era abandonar esta querida postura de jovem privilegiada só porque um atrasado mental se achou no direito de vir atrás de mim e irritar-me com comentários jocosos, justificando-se com o grau de nudez das minhas pernas. Tenho calor, foda-se!