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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Robôs

   Nem tudo é maravilhoso no reino das batatas, começando pelo facto de este ser o reino das batatas. Os alemães e as mil e uma formas de cozinhar batatas: tanto pode uma cicatriz de guerra como a prova maior da falta de originalidade desta gente; e a última é mais a consequência de uma mania maior que um defeito. Os alemães gostam muito de protocolos, isso sim. É tão grande esse amor que as regras de fabrico da cerveja vêm imutáveis da idade média. E perante um ambiente onde à partida não existe qualquer preceito, as regras nascem naturalmente. Até para circular dentro de um centro comercial. Poucos dias depois da minha chegada, foi inaugurado uma dessas superfícies mesmo ao lado do meu prédio. Curiosa (e a precisar de roupa nova), resolvi dar uma espreitadela ao mamarracho logo na semana a seguir. Esperava muita gente, barulho, confusão; e vi muita gente, é verdade, mas a forma como se circulava pelos corredores desconcertou-me. As pessoas formavam duas filas, uma em cada sentido; as filas contornavam a praça central, e era como circular numa autoestrada: se alguém quisesse entrar numa loja, fazia pisca e saía da fila. As pessoas moviam-se lentamente e sem qualquer emoção. Pareciam zombies às voltinhas pela praça central. E eu - recém chegada, animada, vinda do mundo da gritaria e dos encontrões - assustei-me com aquele excesso de ordem

   Quando vim a Portugal pelo Natal, tive que perder um dia numa Loja do Cidadão. Quando finalmente reclamei o meu tempo frente a uma funcionária particularmente conversadeira, ouvi-a acusar os alemães de serem uns robôs. Aquilo ofendeu-me. Não era a primeira reação negativa que recebia quando dizia que estava a viver na Alemanha, mas foi a mais direta e acusativa. Lembrei-me imediatamente do Yannick* e fiz cara feia. Não quis discutir com a funcionária, que continuou a tagarelar mesmo quando o meu olhar endureceu. Regra geral, gosto pouco que tentem conversar comigo em repartições públicas ou cabeleireiros: dêem-me os papéis pelos quais esperei oito horas; prestem atenção quando digo que quero "cortar só as pontinhas". E gosto menos ainda quando oiço dizer que as pessoas de quem gosto são autómatos abastecidos a cerveja.  Sei ser educada nestas circunstâncias, em parte porque sou bem versada na arte da passiva-agressividade. Foi o que fiz; e saí dali com o sorriso mais amarelo. Mas ao pensar aquelas palavras no caminho para casa, recordei a parada zombie do centro comercial. É fácil pensar que estes tipos são uns robôs. O vicio da ordem faz com que ajam automaticamente, e o português estranha. O americano também estranha; o russo também estranha; os indianos riem-se imenso. Não são robôs: são rígidos e são incrivelmente tímidos. Até nas festas. Os alemães são muito bons na arte de dançar parados.

 

*Embora este alemão em particular não seja um bom exemplo: os 50% de material genético malaio fazem com que tenha características muito pouco germânicas, como chegar atrasado a todo o lado e não gostar de batatas.

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