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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

SWRB Update #4

   Ontem fiz um par de maminhas de desnível: sobe e desce, sobre outra vez e desce outra vez. Esperava derreter os meus quadricípites, que são uma metáfora para as bastas inquietações da minha vida. Por isso, folgada das subidas quase gatinhadas e das descidas assombradas pelo risco de queda e subsequentes esfoladelas, continuei a correr e perfiz o impressionante total de três horas saltitando pelos estradões. Diverti-me à brava. Perdi-me três vezes, e numa delas fui parar ao quintal de um senhor que estava a lavar o carro à mangueirada - o pobre deve ter-me achado louca; fui apitada zero vezes e sonhei com um mundo onde seria desnecessário notar esse facto; usei as técnicas do Encantador de Cães para proteger as canelas; e cheguei a casa feliz e bem resolvida - e estava mesmo a precisar, depois de uma semana cheia de indisposições mentais e preocupações. Só algum tempo depois pensei nas consequências do que tinha feito. Queres uma lesão, miúda? Porque é assim que arranjas uma lesão. Talvez tenha sorte: hoje acordei plena de frescura; estalei os joelhos como é costume; desci as escadas descalça e estalei as restantes articulações das pernas, mas nenhuma se queixou mais do que noutra manhã qualquer; e os quadricípites estão como se nada se tivesse passado.

   Continuemos.

 

   To the Lighthouse, Virginia Woolf:

   Um grupo de pessoas - uma família e alguns convidados - passam férias junto ao mar; um passeio de barco até ao farol que só se concretiza uma data de anos depois. A história não interessa nada; importam os personagens: à primeira vista parecem aborrecidos, mas depois vemos que têm tantas dimensões, vão para lá do concebível! Pensam muito, sentem muito, e todos os pensamentos e sentimentos são extraordinariamente explorados. As reflexões de cada um demoram-se por várias páginas, o leitor perde-se nelas, mas são tão belas! Woolf merece todas as exclamações, e eu nem sou pessoa de exclamar muito. É um livro difícil, na medida em que exige atenção; prende-nos, devemos concentrarmo-nos apenas nas linhas, segui-las com cuidado, caso contrário não percebemos a riqueza que temos em mãos. E é uma pena.

 

   Plot Against America, Philip Roth:

   Foi por causa desta obra de caca que o meu ritmo de leitura abrandou. Que seca de livro, foda-se. Quando o terminei, a necessidade de sair do estado de aborrecimento era tão grande que chateei toda a gente com o porquê de Plot Against America se tratar de um enorme falhanço enquanto exercício de história alternativa. Para começar, quão disparatado é tentar conceber uma América dos anos 40 onde a população judia é mais segregada do que os negros? Boo-hoo, os judeus americanos sofrem tanto. E como não bastasse a estupidez da premissa, o livro ainda é preguiçoso. Não chega a concretizar nada do que promete e o pouco que concretiza não é convincente. O Roth não escreve mal, atenção, mas tem as personagens menos capazes de suscitar empatia de sempre. E também acho que ele se arma ao pingarelho. É uma característica que parecemos partilhar, eu sei, mas o facto de eu ter a mania não significa que goste de ver essa mania nos outros. Ainda assim, estou a dar uma segunda oportunidade ao Roth: ando a ler o The Human Stain. Vou a meio; é melhor, mas ainda não sei se estou convencida.

 

   Mar Morto, Jorge Amado:

   É engraçado, vá. Os pescadores, e os barquinhos dos pescadores, e as mulatas popozudas. E o amor. Raios partam os autores sul-americanos e o amor. Não tenho muito mais a dizer, lê-se bem mas é perfeitamente esquecível.

 

   Boas notícias: faltam só cinco livros para ficarmos em dia. Uh-uuh!