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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Tarte de Amêndoa

   Hoje os meus pais comemoram mais um ano de casamento. Já são tantos que nem me incomodo com o número. Se eu fosse uma boa filha — assim ouvi no ano passado —, contava os anos e comprava anéis a condizer. Mas sou pior que pobre: sou dependente; e mesmo que não fosse, devo demasiadas crises e maluqueiras aos meus pais para gastar meia bolsa em anilhas ornamentais. Eles sabem que sucesso do seu casamento me deixa muito feliz; e sabem, que eu já lhes expliquei bastas vezes, que o facto de ainda conservarem a capacidade de se portarem como dois adolescentes mina as minhas expectativas face a relações futuras. Bem gostava eu de ser surpreendida pela minha filha enquanto estava na marmelada com o pai dela. (É nojento. Quero dizer, é muito bonito, mas são os meus pais, logo é nojento.) Só que para mim, tal idílio não passa disso mesmo. Quando ultrapasso o facto daqueles seres humanos aos beijos na cozinha serem o meu pai e a minha mãe (ugh!), vejo como é impossível mimar a força daquelas duas pessoas, muito menos a forma poderosa e duradora como se combinam. Não sei como procurar algo assim: primeiro, ainda venho daquele lugar negro onde acho que não mereço partilhar o que quer que seja; e além disso, tenho dificuldade em fazer uma boa tarte de amêndoa. Segundo a minha mãe, o segredo está na tarte de amêndoa que ela todas as semanas levava a casa dos meus avós; todas as semanas até o meu pai a convidar a sair. Mas eis um factoide assaz curioso: hoje, se eu não atino com a tarte, a minha mãe também não. Da última vez que tentou reproduzi-la, seguindo religiosamente as instruções manuscritas num papel que os anos amarelaram, a cobertura ficou esquisita, cheia de grumos; numa tentativa anterior, a massa ficara elástica. Vi a minha mãe olhar as tartes com um sorriso muito estranho, a dizer que perdera o jeito. E eu, que nunca o tive?

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