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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Telefone Estragado

   Se maldigo a minha vida amorosa, é por minha culpa. Por exemplo, esta cena é um clássico: há um estranho no bar, visualmente agradável e articulado; o dito exemplar aproxima-se e mete conversa comigo. Qual é a minha reação? Encaminho-o prontamente para a amiga mais próxima e mando vir outra cerveja. No meu (terrível) entendimento, a probabilidade de haver um ser humano possuidor de quatro membros funcionais interessado em interagir comigo é muito reduzida, por isso encolho-me no papel de alcoviteira e ofereço ao destino o meu melhor sorriso. Só que nalguns casos, a conversa era mesmo comigo. Foi assim que deixei passar o amor da minha vida no universo paralelo #4, o pai dos meus filhos no universo paralelo #34, e o motivo pelo qual tenho um mandato de captura internacional no universo paralelo #56.

   Outro clássico é o jantar romântico, cuja verdadeira natureza só me é revelada quando tenho uma língua estranha entalada na garganta. É a surpresa que me apanha, garanto. Há uma quantidade apreciável de bactérias com as quais a minha flora bucal se arrepende de ter travado conhecimento, mas que só o fez porque foi apanhada de surpresa. De novo, a possibilidade de haver interessados em partilhar comigo os primeiros estados do processo digestivo é vista como remota. Se eu acho que a repetição sucessiva desses jantares indica algum interesse? Racionalmente, sim; mas eu sou a pessoa mais ingénua que conheço. Desconfiada, cínica, mas estupidamente ingénua. A minha frase preferida é somos só amigos. Nunca tive a oportunidade de dizer outra coisa. Andei uma vez de mão dada na rua com um rapaz: estava bêbeda que nem um cacho e precisava de uma muleta.

   Espero que a mudança geográfica que se aproxima me ajude a ser mais eficiente no panorama amoroso. Não falar a língua é capaz de ajudar: a única interpretação possível vai ser a ausência de interpretação; estou autorizada a não perceber as coisas, a portar-me como um acessório! Sempre achei que a vida das gajas vazias de entendimento era brutalmente mais simples. Bem, elas costumam ter mais namorados, isso é certo. E, pela mesma lógica, escolher o jantar vai ser muito mais simples: ele que escolha por mim. Depois há aquela mística de gaja estrangeira, que é capaz de fazer alguma coisa pelo meu sex appeal (o qual, em território nacional, é equivalente ao de uma batata).

   Estou a tentar motivar-me, não sei se já perceberam.

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