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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Tenho muito jeito para ser filha

   No caminho para casa, sentindo mais que nunca o cansaço físico - e procurando ignorá-lo -, passei por uma quinta cujos muros são feitos de grade e roseiras. A grade é verde, torce-se para formar uma grelha de retângulos muito estreitos, como seteiras, e por esses retângulos espreitam centenas de rosas vermelhas, as suas folhas e os seus espinhos. As flores têm sempre uma cor extraordinariamente viva, inesperada num estradão empoeirado como aquele. Hoje, com o tempo tão farrusco, foram o primeiro (e único) apontamento colorido que vi em quinze quilómetros; e logo que as vi, lembrei-me de arrancar uma para levar à minha mãe. Não trazia nada comigo além de um pacote de lenços e de uma nota de dez euros. Tentei puxar pelos ramos mais finos, mas as roseiras são terríveis, e até as pernadas de aparência mais frágil tinham uma força impressionante. Piquei as mãos todas sem que conseguisse roubar uma flor, e estava quase a desistir quando encontrei a solução. A minha mãe assustou-se quando me viu chegar com rastos de sangue no impermeável amarelo, Como é que arrancaste isso?  Ó mãe, gosto tanto de ti que até arranco rosas à dentada!