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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Torrada

   As pequenas coisas. São sempre essas pequenas coisas, e as trajetórias espiraladas que descrevem. O fim pertence ao início;

está lá, essa pequena coisa;

é o ponto que se quer que seja,

            essa pequena coisa.

   Comigo, foi uma torrada impecavelmente bronzeada; o dia em que dominei a arte de torrar pão numa torradeira de fogão: uma chapa quadrada, com um gradeamento quadriculado por cima, e uma pega de palmo com a forma de um clip. O meu fogão é dos antigos e há cinco anos que o isqueiro não funciona. Tem quatro bicos: dois alimentam a família inteira, os outros dois aquecem sopa para um. As coroas flamejantes ora oferecem uma torrada de cantos queimados, ora desenham uma profética circunferência negra no centro do pão duro. (E diz: não há torradas perfeitas.)

   Ontem cravei os cotovelos no granito da bancada e fiquei a ouvir os estalinhos do metal com atenção. Não tinha nada melhor para fazer. O meu quarto estava demasiado quente; o lençol de baixo da cama tão direitinho, como se ninguém lá tivesse dormido. Levantei-me, senti que era feita de esponja e que estava saturada de água - nada de novo, passara assim os últimos dias; mas os calcanhares tocaram os tacos envernizados e eu tive um desejo. Queria uma torrada ou um abraço. Estava sozinha em casa com o pão duro, por isso peguei a torradeira de fogão e pu-la ao lume; peguei numa fatia de pão e pu-la na torradeira; e ali fiquei, a mover a fatia de um lado para o outro com o dedo, esperando confundir todos os anéis numa só superfície alaranjada.

   A tarefa levou-me dez minutos. O resultado comoveu-me. Tirei a torrada da torradeira de fogão com a mão; escaldei os dedos. Barrei a torrada com manteiga; engordurei os dedos. Olhei para todo o cenário: a torradeira ainda ao lume, a fatia de pão tostada e o seu brilho esbranquiçado, os meus dedos vermelhuscos. O arranjo das coisas, dessas pequenas coisas.

   Eu era uma pessoa, outra vez.