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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Uma rant

   O conteúdo da minha sapateira é tão ou mais limítrofe que eu, especialmente quando se trata de calçado veranil. Algumas sandálias são capazes de me transformar numa aproximação ao holandês-médio, ou de provocar o género de admiração que geralmente se tem pelos trapezistas; as outras são uma desculpa para estar descalça. É tudo muito giro, mas pouco funcional, especialmente para quem caminha tanto quanto eu. Andar a pé é o meu meio de transporte de eleição. Já fui de Belém ao Campo Pequeno a pé sem querer: estava um belo dia de sol e eu calçava  as sabrinas que já tinham palmilhado meia Renânia do Norte-Vestefália; passaram por mim vários autocarros, mas eu limitei-me a piscar-lhes o olho. Se estivesse de saltos, o resultado não seria muito diferente. Fui criada com caminhadas, amoras silvestres e caminhadas para apanhar amoras silvestres; nada é longe se eu conseguir chegar até lá a pé*. Todas as pessoas fisicamente capazes que vejo usar o Metro por uma ou duas estações são severamente julgadas por mim. Não consigo evitá-lo.

   Isto tudo para explicar que a cena da fascite plantar - talvez o equivalente ortopédico de uma constipação no pé, por isso está tudo bem - não foi uma consequência da corrida, mas sim da minha tendência para andar que nem uma doida com o calçado errado: sabrinas e Chuck Taylors; porque andar que nem uma doida não é uma novidade, mas fazê-lo exclusivamente com sapatos rasos sim. Nas últimas semanas, foi com a melhor das intenções que procurei pôr de parte os saltos altos, ignorando que o segredo da saúde dos meus pés estava no balanço entre os joanetes massacrados e o colagénio plantar cansado. Resultado: toda a gente descobriu que eu não meço um metro e oitenta, e agora não tenho outra coisa para calçar além dos ténis que uso para correr. São o único calçado que tenho com suporte para o arco do pé. Bem sei que nestes dias os ténis viraram tendência, mas sinto que há algo de profundamente errado quando combino os Asics cor-de-rosa com outra coisa além do equipamento que uso para correr. Não é uma questão estética - eles inclusive combinam perfeitamente com o meu Candy Yum-Yum da MAC, o que me pôs a ponderar a hipótese de começar a correr com batom**. Já corri mais de quinhentos quilómetros com estes ténis; parece que eles não servem para outra coisa. Não sei andar com eles, apetece-me transformar cada ida à casa-de-banho num sprint.

   E tenho saudades dos meus saltos. Hoje decidi tirar os calções do roupeiro e sei que este tipo de calçado não consegue tirar partido das potencialidades de umas pernas desnudas como as minhas sandálias altas. Admito: sou vaidosa, tenho a mania, e não gosto de esperar muito tempo nas passadeiras; o tipo de ser humano de que toda a gente precisa na sua vida, portanto.

 

* é possível chegar à China a pé? Então a China é perto. Pfffff.

** estou a brincar; neste caso, achei que era importante avisar porque correr maquilhada soa a tipo de coisa que as pessoas pensam que eu seria capaz de fazer.

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