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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Wurstfest

   Esta é uma terra de homens. Conheci apenas duas raparigas desde que aqui cheguei: a Mirjam, de costas para a minha secretária, com cara de bolacha e rastos avermelhados em vez de sobrancelhas; a Tulle, de braço dado aos russos, sem nunca parar de rir. Poderia ser uma consequência de dividir a casa com rapazes, mas não é. A cidade especializou-se na formação de engenheiros, e todos sabemos que esse não é um ofício de meninas — menos ainda das que usam batom encarnado. É assim: levanto o braço e vejo-me rodeada deles, em casa, no trabalho; quando saio à noite. No sábado fui a uma festa onde a razão entre géneros era de quatro para um. Bar fechado, subimos até ao quarto do anfitrião para decidir onde continuar a festa. Eu era a única rapariga na divisão; eu era a origem do espaço, quer me sentasse na mesinha de café, quer me encostasse à parede, a oferecer pedaços de conversa por senha. O chão, as paredes, tudo mexia comigo. A minha imagem numa porcelana e flores aos meus pés. Bastar-me-ia apontar. Quem diria. Nunca soube que podia ser uma mulher, muito menos uma que fosse magnética. Senti-me feita de ar durante tanto tempo. Passei até um ano a ser voluntariamente soprada para dentro de uma bolha, a flutuar, a achar que não havia mais nada além de um compromisso embriagado. Não dou o tempo por perdido: se nunca tivesse sido tratada como um utensílio, nunca daria o devido valor a esta descoberta; mas agora sei que tenho superpoderes. E vou usá-los.

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