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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Flashback

   Há uns dias vi uma série documental da BBC sobre a ascensão e queda do campo de Auschwitz-Birkenau. Num dos episódios falava-se da deportação dos judeus eslovacos. Entre imagens do mínimo centro histórico de Bratislava e fotografias antigas, um soldado eslovaco contava as suas histórias. O velhote tinha um ar gasto, como as ruas do centro histórico da sua capital: um aglomerado de edifícios com tinta descascada em torno de um praça com duas ou três gelatarias e quiosques de souvenirs que aceitavam pagamento em euros. A meio do episódio, o jornalista perguntou ao velho eslovaco o que sentira ao enviar os seus compatriotas para a morte. Nada. Não podia sentir nada. Para sentir, mais valia despir a farda e juntar-se aos judeus. Hoje, olhando para trás, é claro que se sentia mal por tudo o que fizera. No entanto, se pudesse voltar atrás no tempo, faria tudo igual.

   Ao ver isto lembrei-me de um episódio que se passou pela altura em que a blogosfera se manifestava pelas vitimas de violência doméstica. Num banco em frente à Biblioteca Nacional, eu e duas amigas absorvíamos o sol do Outono que ainda sobrava. Debatíamos a pop irrelevante, a nossa idade e as novelas das entrelinhas. Eu acenava mais do que falava, até ouvir uma voz zangada entre o som das folhas a serem varridas pelo vento e dos carros a acelerarem para escapar aos sinais vermelhos. Virei-me para trás e vi um casal a discutir, ou antes, um tipo alto curvado sobre uma miúda assustada. Parecia um filme. O homem agarrava-a pelos punhos e abanava-a, insultava-a, ameaçava-a, e logo a largava com brusquidão. Quando lhe deu o primeiro estalo, já não era só eu que me torcia no banco; como um filme, todos se limitavam a assistir.

   Pensei em levantar-me quando o tipo perguntou ao público se também queriam levar um (estalo) já que estavam a gostar tanto do espetáculo. Os blues fazem com que eu tenha dead wishes, mas as minhas amigas sabem quando me agarrar o braço com força e puxá-lo para baixo. Acabei por ir ter com a rapariga três estalos depois, quando o homem se decidiu ir embora. Pelas bochechas vermelhas escorriam lágrimas gordas. Estás bem? Abanou a cabeça, sim, estava, sim, soluçava. Era uma miúda bonita, lourinha e de olhos claros, com os dezasseis anos que eu tive há não muito tempo mas dos quais já me custa lembrar. Depois, o namorado voltou. Magro, moreno, com roupas largas e um boné torto. Trazia com ele amigos, todos com um ar terrível e ameaçador. Engoli em seco. O rapaz, que descobri ser pouco mais novo que eu, mandou-me embora. Estava tudo bem, ele só se tinha descontrolado um pouco. Eu não sabia o que a gaja tinha feito, ya? Ya. E fui-me embora, enquanto a minha sombra era controlada pelos amigos com mau aspeto e pela miudinha resignada.

   Isto passou-se há uns meses. De vez em quando penso nisso. Será que tinha feito alguma coisa diferente? Provavelmente não. Como disse o velhote eslovaco no documentário, a consciência do que está certo ou errado existe, mas pode facilmente ser contrariada quando o nosso bem-estar está em causa. Em última análise, toda a gente quer é que os outros se fodam.

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