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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Bicicleta

   A memória não me falha quando chamo pelo dia em que aprendi a andar de bicicleta. Foi há três dias, num estradão esburacado. O sentido de orientação dizia-me que o Cartaxo ficava para a direita, as interrogações para a esquerda e o desespero para a frente, montado em duas rodas. Para trás ficava a minha infância mal resolvida. No sótão de casa dos meus pais há joelheiras e cotoveleiras cobertas de promessas, há rodas, rodinhas, encaixes diversos e tentativas para vergar a teimosia, e tudo tem mais pó que alma. São as lembranças do medo à dor, ao vento e à liberdade que fizeram de mim uma caixinha de explosivos furta-cores, mas com um pensar binário.

   Não foi o meu pai, não foi o meu tio. Quem me ensinou a andar de bicicleta foi o treinador da equipa de BTT do meu primo (onze anos de gente, a desenhar oitos com o rasto da bicicleta enquanto eu ajustava o capacete e a prometer-me umas pernas bem esfoladas: sacana do puto, o treinador mandou-o sair dali). O homem era baixinho e maciço, com um sorriso branco e saliente a proteger os meus receios da chuva. Dizia que tinha posto a própria mãe a andar de bicicleta quando os seus filhos já se tinham feito homens, por isso eu não teria dificuldade. A bicicleta que montei pertencia à minha tia e não me deixava chegar com os pés ao chão: não precisava de chegar com os pés ao chão, só de olhar para a frente e pedalar, explicava o treinador.

   O meu coração esqueceu-se de bater nos segundos do primeiro arranque, a rigidez do meu torso dobrava o impacto dos buracos da estrada. Na mudança mais leve, comecei a pedalar furiosamente, até os meus pés perderem o rasto dos pedais e o pobre homem que me segurava pelo assento  me mandar travar. Ofegante, perguntou-me o que tinha achado. A estranheza do que acabara de fazer mascarava qualquer opinião. Os sentimentos entalavam-se numa silaba eterna. As palmas das mãos estavam suadas, as pernas tremiam. Ao fundo da estrada, pai e tio encostavam-se à carrinha que me trouxera àquele ermo, de braços cruzados e talvez com o cenho franzido. Quando é que ela cai, quando é que ela cai? Respirei fundo, preparei-me para um novo arranque ondulado e um passeio segurado pela mão do treinador, de volta ao ponto de partida. Mais duzentos metros de coração na boca, a olhar para a frente e a pedalar.

   Arranquei, olhei para a frente e pedalei. A meio do percurso, comecei a ouvir palmas atrás de mim. O treinador corria ao meu lado e eu estava a andar de bicicleta sem apoios ou rodinhas. Assim, em menos de dez minutos, num daqueles caminhos que as lebres atravessam para fugir dos caçadores. A bicicleta oscilava ao sabor do vento que o meu desequilíbrio inventava, os meus olhos fixavam-se na lezíria infinita, coberta de pasto vivo e nuvens parideiras. Travei sem qualquer graça e com apoio para não rasgar a carne nas silvas lamacentas da berma. A partir daí, tudo foi simples. Andar de bicicleta é um balanço de forças, uma física imediata que dispensa descrições para ser entendida. Tenho andado todos os dias, para dar raspanetes à menina que não quis aprender a equilibrar-se nas milhentas bicicletas que os pais compravam e acabavam sempre por dar aos vizinhos.