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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Filmes

   Enervam-me as meninas-mulheres do cinema francês - e dos outros todos, porquanto não é a língua o verdadeiro tormento. Há nos filmes, nos livros e nas músicas um fascínio pelas vulvas escorregadias, desabrochando pela primeira vez sob o olhar passivo dos  montes de vénus magros, delgados, esses encimados por ventre lisos, quase encovados, e umbigos perfeitos, emoldurados nas costelas flutuantes e proeminentes de uma meninice mal esquecida. Os génios apaixonados enlaçam estas cinturinhas frágeis; o abraço pisca o olho à lascívia e os espectador, leitor, ouvinte, vai-se perdendo nas histórias do despertar feminino - que devem com certeza dar para bater umas punhetas.

   Mudem-se as coordenadas ou até o referencial todo: Einstein usou um dia a matemática para explicar que o cheiro é diferente, mas a merda é a mesma. As meninas repetem-se, como o padrão rosado dos azulejos da casa-de-banho da minha avó, perdem-se nos tetos brancos, nus, vazios como o verde pantanoso dos seus olhos. Vejo tudo, sentada no sofá, onde as minhas coxas rechonchudas ocupam quase três palmos no couro castanho: as gajas dos filmes são todas passadas e dividem a loucura entre si, com o altruísmo de irmandade. O enlevo da descoberta arrepia-lhes a pele imaculada, retesa-lhes os músculos esguios dos bracinhos, e num repente, seja ele um plano enviesado, uma página dobrada ou um acorde desafinado, o sexo banal torna-se mágico. Que se estenda a passadeira vermelha para as ilustres mulherzinhas, para as pequenas maminhas saltitando com o mundo dentro delas, não é?

   É; e eu estou para aqui sentada, enciumada e em contagem decrescente para a próxima menstruação. Quando tinha dezasseis ou dezassete anos, não conseguia medir o diâmetro da minha coxa com as minhas mãos, ou cingir a cintura de olhares esfaimados. Havia um problema comigo e com todas as outras meninas, pouco ou nada exóticas. Nunca me contaram a história da miúda sexualmente inapta, a que se vem com a promessa de um toque mais ousado, tal a força com que a carne se contém, sob a leveza inócua do vestidinho rodado. Alcachofras murchas, esquecidas num jarro de loiça chinesa, triste bibelot da cultura sabida. A arte odeia as virgens - e elas também.

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