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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Recalcamento

   Ontem descobri o caderno de argolas que andava sempre comigo quando eu tinha dezasseis anos. Lembrava-me dele - até do seu peso na mala, entalado entre os livros de matemática e biologia -, mas esquecera-me da sua última morada. Estaria numa das divisões da minha escrivaninha? Na gaveta da mesa de cabeceira que só fecha se lhe dedicarmos uma reza? Não, estava no escritório, numa das gavetas da secretária, junto com os meus relatórios escolares. Abri-o. Estava mais magro do que quando o comprei - às vezes arrancava-lhe as folhas riscadas de rimas prosaicas e sonetos falhados. Escrevi bastante poesia na minha adolescência. Na verdade, com o tempo convenci-me que os meus escritos dessa altura eram apenas (maus) poemas, por isso foi com surpresa que li dois ou três contos. Fiquei a perguntar-me se tinham mesmo sido escritos por mim ou se copiara as frases de algum lado. Depois acabei por me lembrar de os ter mostrado aos meus amigos do secundário.

   A memória é uma coisa muito esquisita. Tentaram explicar-ma nalgumas aulas de fisiologia, mas nove da manhã é muito cedo para apreender um mecanismo tão complexo, obscuro, quase desconhecido mesmo por quem se diz especialista. Assim que olhei para a minha letra redondinha, muito certinha e obediente nas linhas do caderno, recordei imediatamente a hora de almoço em que sujeitei os meus textos à avaliação leiga dos meus coleguinhas. Estávamos num dos restaurantes perto da escola, à espera dos nossos pratos do dia. Não sou capaz de reproduzir o meu pedido palavra a palavra - devo ter deixado escapar primeiro uma dica, e depois estendido o caderno -, mas o resultado foi desastroso, tão mau que passaram-se anos até que eu me visse capaz de sequer tentar escrever um conto. Os meus amigos gozaram com as minhas estórias, que felizmente eram apenas isso, cenas inventadas. Havia uma fábula na coleção e tudo. E eu, com a minha suscetibilidade natural, mais a que é adicionada pela adolescência, fiquei anos sem escrever nada além de blogues.

   Quero dizer, por muito tempo deixei esta memória enterrada, até ontem não a culpava de nada, mas agora parece-me uma boa explicação. Li Freud neste verão. Posso resumir a obra (Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade) em duas palavras: homofobia e recalcamento. A primeira não é relevante para o caso, é só uma observação - nem a consigo elevar à categoria de crítica porque a obra deve ser enquadrada no contexto social em que foi escrita, e nesse sentido, Freud trata a homossexualidade de forma mais branda que muitos na sua época. A segunda é. Recalcamento, recalcamento, recalcamento. Sou uma recalcada, pelos vistos.

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