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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Couve

   Da janela do meu quarto vejo o quintal do meu vizinho que ainda não o é: a casa está pronta há meses, mas a família espera por um qualquer desígnio divino para enxotar as baratas do rés-do-chão e inaugurar o lar. Enquanto a vivenda branca se enche de pó, só para ter dentro de si algo que substitua a tão desejada labuta doméstica (e consta que o meu vizinho é pai de quatro crianças em idade escolar), o quintal, a parte da residência que pior se esconde, começa a mostrar sinais de abandono. Da calçada aldrabada - projeto de um homem só, forreta e autodidata - brotam ervas daninhas, muito verdinhas e viçosas; e mesmo em frente ao portão da entrada, qual cão de guarda excessivamente zeloso, nasceu uma couve portuguesa.

   Não minto, e se o fizesse acusar-me-ia de imediato para ver a minha imaginação ser parabenizada; a realidade roubou-me o potencial rasgo de genialidade. Uma couve portuguesa nascida nos intervalos da calçada, acabei de reparar nela agora mesmo, ao fechar as portadas da minha janela; uma couve portuguesa, de caule graúdo e folhas duras. 

   Esta descoberta foi a cena mais fixe que me aconteceu em semanas.

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