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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Jane Eyre (SWRB #11)

   A minha intenção ao regressar às maravilhosas reviews, cuja ausência vos cobre as tardes solarengas com o véu nebuloso da saudade e do intelecto subestimulado, era seguir a ordem cronológica. Recuaria até meados de Dezembro, com o mortificante - em vários sentidos, incluindo os mais pessoais - Slaughterhouse Five, e daí seguiria rumo ao presente dia. A lista, apesar de atestar as minhas qualidades enquanto leitora, não é tão extensa que vos deixe a pensar que nunca tiro o focinho dos livros; da mencionada obra até ao final do ano distaram apenas dois volumes, e dos gins celebratórios do novo ano até ao presente dia foram três os livros que li. Seria fácil escrever sobre eles como queria, na ordem que queria. Mas o facto de ter fechado há instantes o Jane Eyre veio escangalhar tudo - e este escangalhar traduz-se numa súbita e irresistível vontade de borrifar algumas linhas com a minha amargura adolescente.

   Apresento-vos então a obra-prima da Brönte #3, uma fantasia inequivocamente autobiográfica que promete fazer chorar o espectador-tipo dos programas da tarde e fazer suspirar as almas leves e apaixonadas. (Plain) Jane Eyre é uma pobre orfã que vive com a tia e os primos, votada ao desprezo e a ocasionais maus tratos. Aos dez anos parte para um colégio onde, sentada lado a lado com a fome, o frio e a febre tifoide - a qual, para comoção do leitor, lhe rouba a primeira amiga que faz na vida -, aprende francês, desenho e outras coisas de menina. Após a conclusão dos estudos, Jane permanece no colégio como professora, até decidir que há um limite de papas de aveia queimadas que uma pessoa consegue consumir durante a vida. Depois de colocar um anúncio no jornal, Jane parte para Thornfield Hall, onde assume funções de perceptora de uma menina francesa. E é aí que conhece Mr. Rochester.

   Pausa. Um dos livros que li no verão do ano passado foi o Wide Sargasso Sea, esse conhecido devaneio da Jean Rhys sobre Bertha Mason - ou deverei dizer Senhora Rochester?  Estou certa que quando Rhys escreveu a sua obra não foi visitada pelo espectro emaciado de Charlotte Brönte, mas para mim é como se tivesse sido; é como se os dois universos ficcionais, mesmo partindo de mentes diferentes, em épocas diferentes e com intenções totalmente diferentes, se unissem numa só triste história, a história de Bertha Antoniette Manson, a maluquinha no sótão de Thornfield Hall. A esposa renegada cuja existência é ocultada até aos limites do razoável. Por isso, a aparição do reto e varonil Edward Rochester, montado no seu majestoso cavalo qual príncipe encantado, mostrando ao leitor que mesmo no século dezanove havia quem defendesse que os quarenta eram os novos trinta, não foi uma revelação. Não me apaixonei, não arregalei os olhos com o avançar das páginas. Sei o que fizeste na Jamaica, man.

   E então, o que acontece? Jane Eyre não prima pela surpresa. A ação desenrola-se seguindo a vontade popular, com poucas surpresas ou sobressaltos. Mr. Rochester, o grande proprietário, viajado, apreciador do que é elevado, eleito bastas vezes um dos personagens masculinos mais fodíveis da literatura [risos], apaixona-se pela preceptorazinha. Garanto-vos que nunca um diminutivo foi tão adequado. Jane é uma figurinha minúscula cujas teimosia e frontalidade são os únicos atributos dignos de reparo. De resto, é uma personagem totalmente plana e aborrecida. As privações, as desventuras do seu frágil coração parecem incapazes de a moldar. Do início ao fim do livro, Jane é a mesma rapariga simples, educada e temente a Deus. A sua vontade não oscila além dos limites do que é feminino: tanto foge do amado quando descobre que este é casado com uma homicida crioula como volta para ele ante a perspetiva de ser desposada pelo detestável Saint John Rivers. Apetece esbofetear-lhe os traços incomuns (feios, como reparam alguns personagens), puxar-lhe os cabelinhos de rata - pelo menos até percebermos que, em última análise, Jane é o alter-ego da frágil, tímida mas resoluta Charlotte. Aí compreendo. Bigamia e enganos à parte, Mr. Rochester é um partido altamente desejável. É com isto que uma gaja sonha.

   Mas nem tudo acerca de Jane Eyre me leva a revirar os olhos. Posso cuspir na história de amor, com o desdém de jovem amargurada e pouco crente, mas impossível é ignorar o toque da natureza na narrativa, o papel dos bosques, das montanhas e das charnecas no desenrolar dos acontecimentos, o inegável misticismo da meteorologia. A omnipresente chuva britânica marca a ação como um metrónomo, à boa maneira de Wuthering Heights. A pena de Emily Brönte surge na obra como uma marca de água. Pudera! Se eu tivesse a Emily como irmã certificar-me-ia que todos os meus textos, ensaios e devaneios lhe passavam primeiro pelas mãos.

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