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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Interlúdio lamechas

   Este ano há amoras por todo o lado, mas são mirradinhas, uma sombra das gordas bagas negras de anos passados. Encontrei uma, esquecida pelos pássaros, do tamanho de meio polegar. Foi a única. A culpa é do inverno seco, que tanto jeito me deu para usar roupa fina e sapatinhos de baile. Pequeninas também se comem, é certo; até as que foram carcomidas pelo sol forte se atiram para as caixas, parecem passas e arranham a língua. Num desses dias, enquanto lutava com umas pernadas estioladas perto dos campos do cemitério, passou um homem numa mota clássica com sidecar — um cenário de reflexos reluzentes: vidros, espelhos, cromados e uma careca muito burguesa. Estacionou ao lado do caixote do lixo, na outra ponta do silvado, e de lá gritou:

   — Caracóis?

   Algures em março, numa manhã de morrinha, passei a correr pela estrada na qual se abrem as garagens de um pequeno quarteirão de vivendas. O caminho é plano e bom para fazer treinos de séries; nesse dia, quando passei por ali uma primeira vez, vi dezenas de caracoletas a aventurarem-se pelo alcatrão escorregadio, pauzinhos estendidos em oração às nuvens prenhes. Um quadro amoroso: aqueles pequenos seres saudando a partida do tempo triste a passo lento e suave; a mesma lentidão e suavidade com que a natureza se repete sem nunca deixar de maravilhar. Consegui saltar entre todas as casinhas espiraladas sem esmagar nenhuma e segui o meu caminho. Quando voltei a passar por ali, trazia cabeça à roda e estava prestes a cuspir as tripas (ou, pelo menos, os restos dos quais as tripas se queriam livrar); mas, por alguma razão, animava-me o reencontro com as bichas. Cheguei à estradinha: as caracoletas tinham sido todas esmagadas pelos carros que tinham saído apressadamente das garagens.

   A história nunca mais me saiu da cabeça.

   — Não. — Saquei do garrancho para puxar um ramo alto e teimoso; para me exibir: não há cacho que escape à fúria recoletora. Imaginei-me na pré-história como campeã da recoleção de fruta, sementes, pedras e conchinhas. Só depois é que respondi:

   — Amoras.

   O homem tornou:

   — Ai, isso é tão bom. Eu apanhava tantas quando era miúdo.

   Apanhar amoras é uma brincadeira de crianças. Toda a gente me diz o mesmo: eu apanhava tantas quando era miúdo. E depois deixaram de as apanhar e passaram a ser a gente que sai à pressa das garagens. É assim a vida, atavia-se um suspiro e arruma-se o caso. De algumas pessoas ouvi que vendiam as amoras na praça e repartiam os lucros com os amigos. Eu nunca fiz isso. Sempre as apanhei sozinha, e sozinha as comi, com pouca vontade de as trocar pelo que quer que fosse. Mas quando o homem, depois de me contar como fizera um belo licor de framboesa com as bagas de invernos mais húmidos, me perguntou se podia roubar-me umas amoras, eu disse que sim. Ora essa, há aqui tantas.  E ali à frente há mais. Não seria tudo mais simples e bonito se toda a gente parasse para apanhar meia dúzia de amoras?

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