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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

   Uma das consequências de ser uma ratazana dos subúrbios é pensar que a prática desportiva viral é o ciclismo, e não a corrida. Aqui não há marginais, só estradões solitários ou estradas secundárias esburacadas que falham os requisitos mínimos do fixe - ao contrário do zumba (da zumba?). Nas manhãs de domingo, costumo cruzar-me apenas com dois ou três corredores (são sempre homens e têm sempre a idade do meu pai e são sempre mais rápidos que eu); as corridas longas do fim-de-semana fogem ao rótulo de retiro graças aos vários ciclistas que vou apanhando pelo caminho - e vários é uma unidade de medida equivalente às dezenas.

   A minha opinião só muda quando vou para zonas mais movimentadas - leia-se, quando preciso de fazer um treino em terreno plano e sou obrigada a deslocar-me de carro até ao passeio à beira-rio entre as localidades X e Y; quando me aproximo da cidade, portanto. Os paredões-pista - os da sinalética azul e quilómetros bem marcados, banquinhos de pau e chafarizes com água potável - parecem fazer com que as pessoas percam o medo de se mexer; um pouco como os ginásios: são sítios onde as meninas estão autorizadas a suar. Há muita gente a andar, outra tanta a correr. Não sou a única miúda; não sou a mais lenta.

   Pelo passeio também passam bicicletas. São as mesmas que passam por mim nas vias esquecidas ao lado da linha do comboio; mas, ao mesmo tempo, não o são. Quando vou sozinha na estrada, sou cumprimentada; naquela pista, atiram-me comentários jocosos. E ontem, enquanto eu tentava bater o meu recorde pessoal dos 10 km, o exemplar #2 de um cluster de imbecis enlameados tirou-me uma fotografia; toda suada, e vermelha, e despenteada, e com as pernas às manchinhas. Como eu devia ir a uns simpáticos 5:20 min/km, é seguro esperar que a fotografia tenha ficado uma bela merda, e a minha disposição não ficou em semelhante estado porque eu efetivamente bati o meu recorde pessoal dos 10 km.

   Foi estranho. Senti-me desconfortável e quis a solidão da terra batida, das silvas, dos cães que saem a correr dos portões das quintas para me fazerem companhia. Quis os ciclistas que são surpreendidos pela visão de uma miúda a correr no meio do nada, não aqueles que estavam à minha espera, ou à espera de alguém como eu.