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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

   Estive pela primeira vez na Grécia em 2008. Fui turista e fui filha de turistas. Bufei ante o desprezo da minha mãe pelas estátuas sem cabeça. Ela não compreendia as filas intermináveis, os flashes, o pó a arder na garganta. Fazia tanto calor nesse dia de julho. Ao longe, as velhas colunas pareciam dobrar-se de cansaço. Filha, isto está tudo partido! Contei a história da explosão do Pártenon à minha mãe enquanto descíamos pelos paralelepípedos. Tirámos fotografias, comprámos imanes; e, no fim, fomos barradas à entrada da Sintagma por um cordão policial. Não nos assustámos. Nessa altura, ainda tínhamos televisão na cozinha; isso bastava para que soubéssemos o significado daquelas palavras de ordem e traduzíssemos as faixas por simpatia. Teve muita piada chegar de Atenas com a crise-proveta para contar aos amigos. Mas só compreendi o que contava muito depois dos vapores assassinarem a televisão: quando regressei àquele mesmo local, seis anos depois. Já não havia nada para ver, além do edifício alaranjado do Parlamento e do ritual meio pateta do render da guarda. Fui turista outra vez, claro, mas não tive ninguém a quem explicar as estátuas decapitadas; em vez disso, a cidade foi-me mostrada por quem lá vivia. Pude então reparar no que realmente importava: os buracos das ruas, maiores e mais numerosos, a dificultarem o caminho até ao hotel; os cães, arrastando a tristeza pelas esquinas empedradas; e a cara das pessoas, a mimar na perfeição o orgulho dorido dos cães. É a partir deste pequeno conjunto de coisas que se descobre a realidade de um lugar. Não precisava de mais nada. Ainda assim, levaram-me a beber umas cervejas ao bairro dos anarquistas (havia alemães no grupo; sobrevivemos) e jantámos em sítios castiços, sem ementas traduzidas. Num desses jantares, já o vinho corria nos labirintos da consciência sem que nos atrevêssemos a detê-lo, brindámos à União Europeia. Era por causa dela que estávamos todos ali; o agradecimento foi sincero. Tem piada recordá-lo hoje.

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