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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

   Fui correr e foi terrível. Em cada passada: o corpo dorido, o peito apertado, a barriga inchada; a vontade de me deitar no meio da estrada e esperar, esperar por alguma coisa, esperar pelas luzes noturnas que vêm tingir a noite de tons azuis e acinzentados, e esperar que essas luzes fossem sugadas pela minha consciência. Talvez tenham sido os piores dez quilómetros de sempre; uma corrida ainda pior do que aqueloutra, em março?, quando o impulso foi mais forte e me pus horizontal num caminho secundário. Foi num domingo, passavam já das seis da tarde. Tinha ficado na casa de um amigo na noite anterior; bebi um bocado, dormi muito pouco. Fui correr porque tinha de ser, e acabei estendida no alcatrão rachado, perto de um terreno onde pastavam três cavalos, envoltos num halo de merda e de moscas moles. E também eu me via rodeada dessa merda, dessas moscas. As nuvens densas abriam-se  lá longe, uma cortina de sol projetava-se na torre da igreja da localidade de X, onde eu deveria chegar dali a dois quilómetros. Na altura, aquilo pareceu-me estupidamente simbólico. Achei que ia morrer ali; quando decidi que não era isso que queria, levantei-me e fiz os treze quilómetros que faltavam para chegar a casa. O meu pai abriu-me a porta, e eu desatei a chorar. (Correr é fixe. Não sei se já o tinha dito.) Mas hoje foi diferente. Não chorei quando cheguei a casa; não foi uma experiência emocional. Sentia-me mal porque o meu corpo estava realmente mal e pude ver as consequências da forma como o tratei na última semana. A cabeça é que manda em tudo, diz a minha avó. Tem razão. Eu é que tenho que arranjar forma de mandar na minha cabeça e começar outra vez a comer iogurtes com sementes de chia. (Eu até já tinha começado a fazer pequenos almoços em frascos, aqueles que ficam no frigorífico durante a noite! Tão saudável, foda-se!)

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