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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Alegorizando

   Tenho dez páginas para me redimir sofrimento causado ao meu exemplar do Retrato do Artista quando Jovem. O que é que eu lhe fiz? Batizei-o; tendo em conta o conteúdo do livro, o ato em si é motivo suficiente para criar animosidades entre o objeto e a proprietária, ainda que o banho não tenha sido propositado. Eu ando sempre com uma garrafa de litro e meio na mala. Os espelhos destas casas-de-banho remiram-me, impiedosos, e forçam as tentativas de ser uma pessoa saudável. Às vezes, não enrosco bem a tampa da garrafa, tal como às vezes me esqueço do que quero fazer quando me vejo numa divisão da casa onde só entro quando tenho algo para fazer. Expliquei isto ao livro (foste comprado por uma vaca egocêntrica e emocionalmente míope), ele percebeu e regurgitou-me para os olhos extensas considerações sobre estética, à laia de reconciliação. O problema é que, num almoço, repeti a façanha com cerveja. Lá ficou o livro a pingar, de páginas lambidas pela cevada doiradinha. Muito incomodada, repeti as minhas desculpas mas, ato contínuo, logo lhe pincelei as beiças de gin. Foi como uma granada, vimo-nos ambos inconsoláveis, rasgados, estilhaçados. É claro que foi sem querer. Eu tenho a triste particularidade de só saber o que faço depois de o fazer. Porque é que eu tinha o livro ao pé do balão de gin? Como se provam as boas intenções quando elas parecem sempre más; quando, na verdade, só não o são se encaradas do meu ponto de vista, no meu próprio sistema mental - que ainda está na versão beta? É impossível. A boa vontade não se rege por nenhuma lei de conservação. O livro odeia-me e eu nem o posso recriminar por isso. E, a dez páginas de o terminar, não há muito que lhe possa fazer. Festinhas? Beijinhos? Levá-lo a passear e a mostrar-se como a manifestação cultural prepotente que é? Não sei. Mas não posso prolongar as dez páginas indefinidamente, até ser iluminada pelo plano de redenção perfeito; nem tampouco posso passar o resto da minha vida a pedir desculpa às pesso… LIVROS, aos livros.

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