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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Aprendendo

   Comecei a aprender crioulo por acidente. Os responsáveis são um colega cabo-verdiano muito orgulhoso das suas origens, e uma colega que quer impressionar os amigos com frases que vão além do vernáculo da música comercial desta presente era. Bo tem mel significa Tu tens mel; eu poderia viver sem saber isto, mas há uma parte de mim que se sente feliz por não ser obrigada a uma existência de títulos populares não traduzidos. Eu e estes dois colegas formamos um estranho trio. Em comum temos uma situação ingrata, a cortesia das pessoas crescidas, e o crioulo; em circunstâncias normais, talvez nunca nos falássemos. Não que falemos muito. O colega-professor atende aos pedidos da colega-aluna, e a colega-parasita (claro que sou eu) vai aproveitando as lições de corredor. Como o interesse da aluna se resume a frases castiças, impropérios e expressões coloquiais que sejam eficazes na verbalização de um estado ébrio, tudo o que aprendi até agora carece de utilidade real. Mas há uns dias, enquanto a minha colega mastigava o crioulo para isto é brutal, atrevi-me a explorar um pouco da gramática. É simples, conquanto estranho. O segredo está nos pronomes; o resto - verbos, substantivos e adjetivos - resulta de apócopes criativas e do abuso nos acentos circunflexos. Não há silabas abertas; é como se tudo fosse um segredo, ou um código; tudo feito de mistérios, esconderijos, sombras - mas o género de sombras que nos oferecem proteção maternal. Note-se que continuo a detestar o os quadris bamboleantes e encaixantes [vamos imaginar que eu sabia de cor a letra de uma musiqueta chamada Jajão: quero deixar claro que tal seria 1) pura ironia ou 2) um terrível acidente, fruto das limitações do rádio do meu carro], mas estou mais perto de perceber o que me estão a cantar; detestar melhor, se preferirem.