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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Correr é fixe: Colocando indivíduos em situações desconfortáveis

   No domingo fiz a primeira prova de 10 km da minha vida*. Fui fazer de lebre ao meu pai e a um amigo dele — eu agora também já faço dessas coisas. A prova era pequena, tão pequena que os 57 minutos que demorei a completá-la deram direito a um 19º lugar no meu escalão**. Foi muito divertido, passei o tempo todo a dizer piadas. O meu pai teve uma dor numa perna ao terceiro quilómetro; quis continuar e agora anda coxo. Ainda me disse para não esperar e tentar fazer um bom tempo. Não fui capaz, tal como não fui capaz de deixar o amigo dele na subida do quilómetro oito — esse estava só cansado, ficou só dorido. Começámos a prova juntos e havíamos de acabar a prova juntos, foi o que eu disse. Nesta altura, fazer 10 km em 57 minutos não é um grande tempo para mim, muito menos numa prova, mas não fiquei melindrada. As fotografias tiradas perto da meta provam-no: aquela sou eu, a rir, e aquele é o meu pai, também a rir, e ali vão dois miúdos que participaram na caminhada e que estão entretidos num sprint final. (Um dia hão de perceber porque é que nós nos estávamos a rir).

   Mas a parte mais engraçada aconteceu depois de passarmos a meta. A prova era tão underground que os atletas nem tinham chip. O controlo das chegadas era feito através de números gritados e listas preenchidas manualmente. Um homem empunhava um marcador azul fluorescente e usava-o para pintar uma linha no dorsal dos atletas que iam terminando a corrida. O processo era tão rápido quanto se imagina, o homem girava de atleta em atleta. Até se ver à minha frente. Olhou para mim, olhou para o meu dorsal; hesitou, o marcador num vaivém nervoso. Eu não percebia porquê. Talvez fosse por estar coberta de suor. As gotículas começavam finalmente a transformar-se em grossos pingos, como se eu tivesse saído do chuveiro. Comecei a ficar demasiado consciente do meu sistema de arrefecimento, envergonhada.

   — Eu sei que estou toda encharcada, mas o marcador deve riscar na mesma.

   O homem olhou para o meu dorsal. Aproximou o marcador, e depois retraiu-se. O movimento continuava.

   — Sim, sim. Mas posso? Como é… deixa que eu… hum?

   And then it hit me.

   Estava imenso calor no domingo. Saí de casa com o dorsal pregado a uma camisola preta que, apesar de velha, é a minha camisola preferida. Só que, chegada ao local da partida, apercebi-me da loucura que seria correr ali, àquela hora, com uma camisola preta. Ignorando quaisquer complexos corporais, despi-a e preguei o dorsal ao soutien de desporto. E assim, passada uma hora de peluda, esqueci-me que o dorsal, agora muito necessitado de um risco azul no canto superior direito, estava colocado em cima minhas mamas; e esqueci-me também que, até quando o soutien de desporto as reduz à bidimensionalidade, as maminhas nunca deixam de ser maminhas. Era esse o problema. O homem à minha frente queria apenas que eu o autorizasse a riscar-me a mama direita com um marcador azul fluorescente. Ofereci-lhe uma gargalhada e mandei-o fazer o risco com modos de taberneira. Nunca vi ninguém tão incomodado por tocar indiretamente numa mama. Pobre homem. (Bom homem.)

 

* É estranho, mas é verdade. Eu saltei logo para as meias maratonas porque sou jovem e inconsequente.

** Não, não eramos 20… eramos 50.