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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Domingo à tarde

   Sexta-feira foi o dia de abertura do famoso Mercado de Natal, com as bancas de vinho quente, pão de gengibre, brinquedos de madeira e globos de neve. Gostando eu tanto do Natal, não consigo evitar andar sempre enfeitada de sorrisos. Há realejos, há o cheiro de crepes, waffles e pipocas; e há também o frio. Finalmente!, dizem, e eu encolho os ombros, esses mesmos ombros que ainda têm as marcas douradas do sul. Ao segundo dia de temperaturas perigosamente próximas do zero (essas hão de chegar lá para terça-feira), a minha garganta ressentiu-se. Tentei tratar o formigueiro com chá de limão, mel e uma preguiçosa manhã de domingo; os modos de doente aborreceram-me. Queixei-me da solidão e minutos depois estava a fazer a mala. Apanhei o número dois. São só meia dúzia de ruas na direção de Eilendorf, mas às cinco da tarde já é noite e não me quis perder neste frio. Curta travessia, em vinte minutos já estava de novo enterrada numa cama oferecida, a escrever, fungando entre cada oração. O chá chegou pouco depois, fervido com gengibre, forte e picante. Ele pousou-o na pequena estante que lhe faz as vezes de mesa de cabeceira, ao lado de uma tradução alemã de Suite Française, e foi sentar-se de novo à secretária. Estamos assim os dois, em silêncio, cada um faz o que tem a fazer. Quando levanto ligeiramente a cabeça, vejo o reflexo do ecrã do portátil nas lentes redondas; e elas voltam-se para mim de vez em quando. O sorriso é o mesmo que me convenceu a experimentar saltar num insuflável.