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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Futurama

   Apanhei uma vez um episódio de Futurama na RTP2. Foi há muito tempo, ainda eu sabia a música do genérico do Doreamon de cor — e em espanhol*. Parei ali o zapping por sentir o apelo do desenho animado: formas coloridas, vozes castiças; não é uma sensação estranha a quem cresceu com uma televisão em casa (ou três, no meu caso). Lembro-me do episódio: era aquele em que todos os elementos da Planet Express tinham um evil twin; e lembro-me também de não ter achado piada nenhuma àqueles bonecos. Anos mais tarde, numas férias de verão, calhou fixar o horário da reemissão de todas as temporadas na FOX. Na altura eram apenas cinco e de segunda a sexta, ao início da tarde, o canal transmitia três ou quatro episódios seguidos. As caixinhas que voltam atrás no tempo são uma invenção posterior a esse meu verão, por isso ver a série completa exigiu muita disciplina da minha parte — e disponibilidade. Sendo eu uma adolescente solitária, foi sem dificuldade que vi todos os episódios. Uma vez, depois outra, e mais outra. Depois, vi os filmes; assisti à sexta e sétima temporadas, aguardando ansiosamente por cada episódio; e rebelei-me contra o novo cancelamento da série. Desconfiava, com a amargura combativa dos fanáticos, que dessa vez não haveriam segundas oportunidades. Tinha razão. O último episódio confirma-o de forma inequívoca (e maravilhosa).

   Já aguentei todo o tipo de esgares, comentários, até ameaças!, por dizer que Futurama é muito melhor que The Simpsons. Não há tabefe que me demova, os vossos argumentos são música de elevador. You can bite my shiny metal ass, que esta minha opinião não é discutível. Nem sequer é uma opinião: é uma verdade absoluta. Apoia-se na genialidade de episódios como o mítico Jurassic Bark (S05E02) — ninguém fala de Futurama sem mencionar este episódio — ou Godfellas (S04E08). Revi este último episódio esta tarde, por acaso, na FX, com uma caneca de Earl Grey a queimar-me a perna, e daí veio a necessidade de escrever este texto. Futurama é uma das minhas séries preferidas, e como os meus gostos deviam ser promovidos a escola de ideias, qualquer afirmação que a coloque acima das aventuras da família Simpson devia ser encarada com naturalidade. Da mesma forma, Godfellas é um dos meus episódios preferidos, logo Godfellas devia ser um dos episódios de eleição do público. Mas não é.

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    A única razão que encontro para a diferença de pontuação IMDBiana entre este episódio e outros como o comovente Jurassic Bark ou o hilariante Amazon Women in the Mood (S03E05) vem do tema que é abordado. Cães fossilizados ou fornicação/snu-snu são um must. Mas todos nós, europeus iluminados, estamos familiarizados com a postura estadunidense perante a religião. Um episódio onde Bender é ejetado da Planet Express e vagueia pelo espaço fazendo-se o Deus de uma colónia de micropigmeus; um episódio onde, mais tarde, após o apocalipse nuclear do pequeno universo sob o seu jugo, Bender efetivamente conhece Deus — e Deus é um computador?; e onde Fry, na busca do seu amigo, reduz a religião ao absurdo… Um episódio destes não será do agrado dos beatos, mas será certamente genial. É-o, de facto. Em Futurama, Groening teve a oportunidade de explorar o seu lado cromo, e aí descobriu as piadas mais inspiradas, as piadas com camadas, as piadas iluminadas. Pena que as subtilezas deste tipo de humor pareçam agradar apenas a um nicho.

 

*Bem, a verdade é que eu ainda consigo cantar a música do genérico espanhol do Doreamon. Vou fazer isso assim que acabar de escrever esta nota.

 

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