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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Introdução às artes divinatórias

   Andamos a queimar velas desde o Halloween: queríamos uma apenas, para dar vida a uma abóbora, e sobrou-nos o resto da embalagem. Desde aí, entretemo-nos a queimá-las, seja porque estamos aborrecidos, porque queremos celebrar, porque a pequena chama amendoada nos apela de forma irresistível, quase primitiva. Na semana passada, usámos as velas para prever o futuro. É um costume das raparigas russas: deixam as velas arder até ao fim, atiram a cera para um copo de água e esperam pelo objeto, pela coisa nova que se forma e ali fica a flutuar. Pode ser um animal, um objeto, um órgão até. Cada forma tem um significado; cada forma traz consigo um destino. O meu, moldado à semelhança de uma ilha, traz eventos de grande importância. Segundo os sites de futurologia russos (e o intérprete à minha direita), esta é uma fase decisiva da minha vida. Confirmo: a ilha sabe o que diz, como o sabiam o abutre, o elefante, o intestino (juro que vimos um cólon a boiar na água). Todas as previsões dessa noite fizeram sentido: nós queríamos que elas fizessem sentido, dobrámos as nossas vidas à vontade das figuras de cera que segurávamos. Estes truques são suficientemente simples e genéricos para se adequarem a qualquer pessoa, é fácil acreditar neles; e nas cartas, e nos búzios, e nas folhinhas de chá. Claro que nós escolhemos não o fazer. Para nós, isto era uma piada. Somos gente inteligente que gosta de queimar velas ao serão, só isso.