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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Mãe, perdi-me

   Ontem perdi-me. Saí de casa para correr - não sei que mais fazer com as minhas manhãs de domingo. Não quis repetir o percurso da semana passada, por isso decidi meter-me por uma estrada que só conhecia dos mapas. Sozinha, sem telemóvel, com um cinto de hidratação primitivo, dois géis e hora de almoço marcada. Já o tinha feito noutros domingos: simulei o percurso para saber quantos quilómetros faria, onde estavam e quais eram os caminhos que teria de apanhar até regressar à estrada que conhecia; mas desta vez, perdi-me.

   Fui parar a um daqueles sítios onde tudo parece uma estrada ou um caminho porque nada é realmente uma estrada ou um caminho. Nalgumas partes, o piso estava sulcado das carroças e manchado de poias de cavalo; noutras, pensei estar a correr sobre uma estrada de pedrinhas que afinal eram só caganitas de coelho, milhares de caganitas assustadas pelos caçadores. A copa larga das árvores refrescava o caminho, as plantas rasteiras tinham folhas de um verde pálido, gasto de esperar por alguém que ali passasse. Tudo muito bonito, bucólico, castiço, até eu descobrir que não tinha virado no sítio certo e que, 17 km depois , continuava a afastar-me de casa.

   Passou por mim uma carroça e corri atrás dela até a perder numa curva. Depois, fui atrás das bicicletas. Queria dicas, ou companhia; os ciclistas cumprimentavam-me e eu tentava manter o ar de quem sabe perfeitamente o que está a fazer. Quando fiquei totalmente sozinha, comecei a saltar cercas, a atravessar campos de girassóis, a procurar passagem pelos campos arados de fresco; finalmente encontrei umas fitas muito oficiais da Câmara Municipal presas aos arbustos: estava num percurso de BTT. Corri por ali fora. Que mais podia fazer? Pelo menos sabia que estava a correr na direção certa.

   O meu ponto de referência era um curral debaixo da autoestrada. A partir daí, sabia como voltar para casa; por ficar à beira de um caminho calmo mas não muito isolado, passo por lá várias vezes. Tento sempre fazê-lo o mais depressa possível por causa do cheiro; qual cheiro, pensei eu ontem: quando o avistei ao longe, já sem água ou géis, aquela esterqueira não cheirava a nada mais que terra seca e calor. A minha cabeça latejava, começava a ver os pontinhos brilhantes da enxaqueca. Tive que optar entre ir para casa ou fazer um desvio ir até à localidade C., onde sabia haver um pequeno café que estava sempre aberto. Foi fácil decidir quando comecei a ver erguerem-se à minha frente paredes de terra, que depois caiam e se transformavam no caminho pelo qual seguia; parecia um jogo, as paredes só desapareciam se eu continuasse a correr. Precisava de água. Virei para o café, sempre a deitar paredes abaixo.

   Depois de ter comprado duas garrafas de água, optei por caminhar nos 3.5 km que faltavam para chegar a casa. Eram onze e meia, estava um calor do caralho e eu já tinha corrido uns brutais 30 km. Olhei para a minha barriga, coberta de uma mistura repugnante de suor, protetor solar e mosquitos; os braços também; as pernas, tinha-as todas empoeiradas. Quem sou eu e como é que cheguei até aqui. Para onde vou, agora?