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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Mãos dormentes

   Foram de propósito buscar enguias; mandaram escolher as mais fininhas, da grossura de um dedo mindinho. Fiquei muito contente por me oferecerem um almoço onde o uso de talheres era dispensável. Não disse nada a ninguém, mas as minhas mãos ainda estavam dormentes quando nos sentámos à mesa. Achava-me incapaz de segurar qualquer objeto de trato fino, como uma caneta, despejei a saqueta no copo de memória; mexi, mexi, as partículas redemoinharam no copo até se dissolverem, tornando a água turva e ácida. Depois fui dormir.

   Sonhei que o David Foster Wallace falava comigo através de uma televisão antiga, uma dessas grandes caixas de ecrã arredondado que ainda se vêm nas casas dos avós (aquela tinha mesmo um naperon encardido em cima). A sala onde nos encontrávamos, eu e a televisão, era tão escura que os seus contornos não se distinguiam. Tanto podia ser um cubículo como um salão enorme. Eu sentava-me frente à televisão com as pernas cruzadas e as mãos abertas no colo, vidrada no truque analógico. Não me lembro do que ele me disse. Podiam ter sido conselhos sobre notas de rodapé ou o laço dos enforcados; podia ter gozado com o meu serviço, com o facto de ser uma lesma no court; podia ter-me recriminado por ter deixado de o pisar de todo. Não me lembro. O meu subconsciente é estranho. Desconfio que é sábio demais para mim, pouco assertivo, limitado na capacidade de comunicar.

   No dia seguinte, descobri por acaso que cheguei à idade em que os meus namorados começam a casar. Está toda a gente a mexer-se e eu parada numa sala cheia de sombra, com medo de descobrir quais as suas verdadeiras dimensões, tão entretida que estou com o pequeno espetáculo colorido. E as mãos: dormentes. O formigueiro vai desaparecendo: lentamente. As coisas acontecem devagar, o rasto que deixam sabe a algo muito amargo.