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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Memorabília #2

   Além dos marcadores de livros e dos dentes de leite, descobri uma série de postais. São quase todos do mesmo tipo. Na frente têm uma representação da natividade, ou uma santa de mãos postas pintada ao jeito romântico; as costas estão escritas a tinta: lêem-se desejos de parabéns, muitas felicidades, e esperança numa eventual conversão. Aliás, nessa gaveta há dois terços de madeira, uma brochura com orações e um porta-chaves com a imagem de uma beata sul-americana que ganhou fama por saltar de uma janela. Deixei tudo onde estava.

   Na gaveta de baixo, encontrei uma caixa cor-de-laranja com flores azuis feitas em tricô e uma malinha verde, também ela tricotada; e, dentro da mala, um clipe em forma de coração abraçava uma morada manuscrita. A minha melhor amiga dos tempos em que eu colecionava dentes mudou-se para o Canadá ainda antes de eu me esquecer que colecionava dentes. Chamava-se N…, era três dias mais nova que eu e tinha um irmão com as mesmas manchinhas vermelhas que lhe apareciam nas bochechas quando chorava. Cheguei a escrever-lhe uma carta. Depois, devo ter feito o que faço habitualmente à vista do que requer investimento emocional e abnegação: deixei tudo onde estava.

   Às vezes penso que gostava de ser católica, como a minha avó e as irmãs dela; gostava de tricotar, usar bem as mãos para agarrar as linhas e fazer coisas bonitas, coisas nas quais pudesse tocar; gostava de saber como está a minha amiga. Tenho pena de não ser a pessoa das minhas gavetas, mesmo a que guardava os dentes de leite - ou especialmente essa. Eu agora não guardo nada; nada merece ser guardado. Sou uma cínica. Deitei o papel fora.