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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Princesa da Estrada

   Quem olhar para as minhas coxas, para os meus braços, ou para a combinação humanoide do que resta desses dois conjuntos, pensará que andei a lutar pela vida ao lusco-fusco. Desta vez, não me vou desculpar pelo exagero: mais de 300 m de acumulado nuns míseros 7 km de trilhos abertos há dois dias é um exagero; a minha reação a um massacre destas proporções, não. Descobri que andava a queixar-me por antecipação, mas adquiri finalmente o direito ao lamento. Na semana passada, escalei dunas usando o método do pega-monstro - porque, quando encontrava algum sítio onde me agarrar, havia uma grande probabilidade de ele se desfazer. Correr numa superfície lunar, por vezes arenosa e traiçoeira, transformando-se mais à frente numa coleção de fragmentos, a terra ressequida, craquelada, como se pisássemos porcelana: um petisco, quando comparado com o que tive de correr-andar-gatinhar ontem. Tenho marcas de guerra, o corpo rasgado como uma miúda que leva as brincadeiras demasiado a sério. Se foi disto que me protegeram durante toda a infância, saibam que estou muito desapontada; entretanto, a idade trouxe o tipo de consciência que transforma qualquer pedra numa ameaça de morte. Torna-se difícil contrariar este pensamento e descer sem medo - desço devagar, de cu, sentada, e todos se riem. Depois, ainda me lembro de que estes são os meses das carraças: escondem-se nas ervas que, ora arrisco provocarem-me ataques de coceira, ora autorizo que me vergastem com a gana das coisas que desgostam ser incomodadas assim, a altas horas da noite. Na próxima estação, a minha abordagem à moda das tatuagens temporárias será feita com arranhões: estes e os demais. O quê?, claro que vou continuar a treinar com esta gente maluca. Chamam-me Princesa da Estrada. Eu não sou uma princesa; não quero. Eu sou a Rainha das cenas todas. Um dia também usarei cobras como pulseiras.