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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Regressamos temporariamente para deixar a seguinte mensagem:

Na quinta-feira, precisava de sair mais cedo do trabalho. Quando pus a mochila às costas, ouvi as colegas do cubículo de trás a chamar por mim. «Inês, onde é que vais?» «Tenho que sair mais cedo», respondi. As minhas colegas trocaram olhares preocupados entre si. Uma delas perguntou-me se eu tinha comboio. Porque é que eu não haveria de ter comboio? 

«Porque houve um atropelamento em massa na La Rambla* há 10 minutos.»

Minto se vos disser que fui apanhada de surpresa. Não havia um jantar ou uma tarde numa esplanada a beber cañas em que ficasse por comentar a facilidade com que um camião se podia meter La Rambla abaixo e passar por cima de dezenas de turistas numa questão de segundos. Contávamos os dias para que isso acontecesse. Na quinta-feira, deixámos de contar. 

Eu tinha comboio, mas não até à estação mais próxima de minha casa: Catalunya. É verdade, todos os dias apanho o ferrocarril no cruzamento da Pelai com a La Rambla, que fica a uns escassos 10 minutos a pé da minha casa. No entanto, desde quinta-feira de manhã que não passo por lá. Há dois dias, para regressar a casa [momentos houve em que, com tanta informação cruzada, não sabia se conseguiria sequer chegar a casa], apanhei o comboio até Provença. Foi a viagem mais silenciosa que já fiz no S2. Toda a gente estava agarrada ao telemóvel. Às vezes, o silêncio era interrompido por um telefonema. Estás bem? Onde é que estás? Eu estou no comboio. Liga-me quando chegares a casa. 

Demorei duas horas a chegar a casa nesse dia. Em Provença, apanhei a linha azul até Hospital Clinic e desci pelas ruas menos movimentadas. Gente, vi pouca. Mossos, não vi nenhum. O único sinal de que algo se passava era o silêncio.  

À noite, costumo deixar as janelas da sala abertas para que o ar circule e ajude a arrefecer este meu velho apartamento de Eixample. Normalmente, tenho dificuldade em adormecer porque há sempre gente na rua a falar muito alto, ou a discutir, ou a cantar. Na quinta-feira dormi mal porque estava tudo demasiado sossegado. Silencioso. 

Uma amiga que está longe, como quase todos os meus amigos estão, perguntou-me se eu estava assustada. Não estou. É certo que não sei como classificar esta sensação que trago comigo, e que deve ser partilhada com todas as pessoas que aqui moram; com os meus vizinhos que, tal como eu, são constantemente recordados de que houve um atentado terrorista a dez minutos das suas casas. E talvez seja por não querer dar um nome a este sentimento, tornando-o definitivo e real, que esteja a escrever este texto quando preciso é de ir à Sephora da Pelai. 

Mas enfim, a vida continua, não é?

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*Uma coisa que me tem tirado do sério nos últimos dois dias ao ler notícias nos meios de comunicação social portugueses (e não só): não é Las Ramblas, é La Rambla, e é só uma rua, está bem? #deixem-meembirrar #euvivoaquiagora

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