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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

Rosenmontag ou O feriado alemão da diabetes

   Deixei de celebrar o Carnaval há mais de dez anos, quando o jeito para fazer amigos era pouco e a vergonha de ser vista na rua com os pais se tornou difícil de suportar. Fui fada, princesa, noiva; depois fechei-me em casa com as televisões desligadas e deixei o desprezo pelas celebrações crescer com o passar dos anos. Ajudou ter tido medo dos cabeçudos em menina e inveja das bailarinas de bunda ao léu depois de crescida. Irritavam-me o barulho e as perucas, as matrafonas bêbedas, os grupos com disfarces a condizer. Até ao dia em que cheguei a casa e me disseram que o Carnaval tinha começado. Estávamos no dia 11 de novembro. O palco onde se festejaram as 11:11 só foi desmontado no dia seguinte, o primeiro da contagem decrescente até à Rosenmontag.

   Pensava eu que o Carnaval fosse mania das terras quentes; uma tonta que pouco sabia das tradições desta região. Na segunda-feira, em Colónia, cidade que se orgulha de ter o maior desfile de Carnaval da Alemanha, estavam 8 graus. Ninguém fingia que estava calor. Os disfarces mais populares eram macacões quentinhos: vacas, cangurus, tigres, porco; frutas e legumes. Haviam corajosos de pernas à mostra (o Ilya, por exemplo, usava um kilt legítimo — entusiasmado pelo disfarce, na madrugada do dia seguinte apanhou um avião para a Escócia), mas muitos faziam a festa de casaco. E o que era a festa, exatamente? Um desfile interminável de carros alegóricos pelas principais ruas do centro e uma chuva de doces como nunca imaginei; tantos doces atirados à multidão, nem as consequências de começar a beber cerveja às 11 da manhã (ou carregar cantis de Stroh 80) impediam o regresso a casa de bolsos cheios. Havia quem arrastasse sacos do lixo, daqueles com capacidade para 6 ou 7 litros; algumas crianças seguravam chapéus de chuva ao contrário para apanharem os chocolates sem muito esforço; das varandas viam-se pilhas de caixas de bombons. Parti duas unhas a tentar proteger-me de pacotes de gomas e bolachas. Também se distribuíam flores às meninas — até eu, a assistir ao desfile afastada das grades, recebi uma rosa cor-de-rosa. E um gingerbread* com a forma de um coração.

   No final da tarde, quando regressámos a casa, esvaziámos os bolsos e enchemos um balde com guloseimas. Comparado com as colheitas de outras pessoas, o nosso balde é muito modesto, mas ninguém estava preparado para ver tanta comida a voar na sua direção. Eu tinha um casaco felpudo** com um bolso de cada lado e uma mala de dimensões ridículas; o Ilya tinha um kilt, o que é que se consegue guardar num kilt?; o Felix tinha um casaco de bolsos mais avantajados, mas quem estava melhor preparado era o Yannick. Sorte a minha, o Yannick não liga a doces, por isso pude usá-lo para armazenamento, e agora tenho quase tantos doces em casa dele quanto na minha. Vou deixá-los lá, claro. Não primo pelo autocontrolo, tomara que o balde se esvazie depressa para poder regressar à aveia e aos espinafres. Até lá, dou graças aos quilómetros que sou obrigada a correr.

 

* qual é a tradução de gingerbread? Bolo de mel?

** sim, eu estava mascarada.