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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

SWRB Update #3

   Hoje saí de casa com a barriga de fora. Há poucas semanas, possuída por um trágico delírio, olhei-me no espelho de um provador e cumprimentei o meu umbigo. Estávamos ambos confiantes, certos do lugar que ocupamos neste mundo. Rendi-me à moda dos crop tops porque ocupo um lugar à janela, embacio o vidro com a minha respiração e desenho corações; e porque me sinto confortável com a minha barriga cor-de-lula; e porque não me restam assim tantos anos de vestuário inapropriado. Por isso, hoje saí de casa com a barriga de fora. Barriga, cumprimenta a pessoas.

   Voltemos aos livros.

 

   Contos Completos, Truman Capote:

   Gosto muito do Capote, e é simpatia que já criou raiz; teria adorado que fossemos os melhores amigos. O In Cold Blood é um dos meus livros preferidos, mas nem é daí que vem este estranho afeto: é mesmo da história de vida do autor e da impressão de que o tipo havia ser mega fofinho. Lamento não conseguir colocar a ideia de outra forma - ao fazê-lo, acabaria talvez por traí-la; acredito na escolha de palavras: mega fofinho. A sensação foi acentuada pela seleção de contos que li, a qual percorre a vida do autor desde que o dito se achou autor. Nota-se pois alguma imaturidade nos primeiros trabalhos, mas muita gente há que nem no seu auge consegue ter a qualidade de um Capote saído do turbilhão hormonal da adolescência. Tomara eu. Outra coisa que se nota é o Sul. Já lera por aí acerca da influência de escritores do sul dos EUA na obra de Capote, mas essa influência nunca se me revelara tão evidente quanto nos contos: logo nas primeiras páginas, não pude deixar de me lembrar da Eudora Welty (outra que acredito ter exsudado fofura). Pensei que seria por tê-la lido há (relativamente) pouco tempo, ou por a minha base de dados mental relativa a autores sulistas ser bastante reduzida, mas fui investigar e, pelos visto, a associação é aprovada por pessoas que percebem realmente do assunto. O Capote gostava da Welty, e gostava também de escrever contos autobiográficos enternecedores. Mega fofinho.

 

   O Deserto dos Tártaros, Dino Buzzati:

   Este livro é perfeito para quem quer mergulhar no existencialismo depressivo. Façam como eu e leiam-no na festa de aniversário de um dos mais jovens elementos da vossa família, onde a curva de distribuição de idades obedece ao modelo bossas-de-camelo e vocês se encontram no mínimo entre-bossas, que é o local onde todos sentam o cu, certamente. Sintam-se mais que etariamente alienados: artisticamente alienados, filosoficamente alienados; porque não vale a pena ter consciência do que se passa à vossa volta. A vida enquanto experiência aleatória e despropositada revela-se no livro que seguram. Estamos todos nas nossas fortalezas à espera da glória. Procuramos o significado de todas as sombras que aparecem no deserto porque é só isso que podemos fazer. Haverá uma altura em que surgirão mais do que promessas; finalmente, as sombras materializam-se; o toque, a vossa concretização, está a um braço de distância. Mas chega tarde, quando vocês já não conseguem estender o braço. A vida é injusta, nada faz sentido, vamos todos morrer e ser esquecidos - alguns serão mesmo esquecidos antes de morrer, outros nem nunca foram lembrados. E tudo isto para nada. Nada. NADAAAAAAA…!!!

   *soluça*

   Sim, gostei muito do livro.

 

   Watt, Samuel Beckett:

   Como é que se fala do Beckett? Só sei que Watt reformulou o propósito das minhas lágrimas; Watt resgatou o meu coração amachucado e pô-lo a rir de coisas estúpidas; Watt era o que tinha na mão quando decidi que estava tudo bem. Foi tudo um acidente, o livro pouco fez. Não me revelou nada. Bastou a sua presença, e o facto de ser absurdo e hilariante. Não se enganem, não esperem o tipo de coisas aborrecidas pelas quais o intelectual-tipo se costuma interessar. Beckett é para toda a gente, incluindo tolos como eu - especialmente tolos como eu. Ser-se tolo é fixe.

   [Nota: é deste livro que vem a frase do cabeçalho deste blogue.]

 

   E com estes três livros, chegámos ao início de Março, mês no qual li Philip Roth pela primeira vez e não gostei nada. Fica para a próxima. 

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