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Curral Quântico

We are no longer the same, you wiser but not sadder, and I sadder but not wiser (...)

The Human Stain (SWRB #17)

   Depois de do terrível Plot Against America, um exercício de perseverança que espero ter servido de treino para os muitos fretes da minha vida futura (e.g. blind dates com forcados, abstémios ou citadores de Wittgenstein), decidi regressar ao universo marginal dos judeus americanos incompreendidos, variante de professor universitário que papa miúdas mais novas, tesas e respondonas, com um passado traumático e novelizável; os primeiros capítulos de The Human Stain parecem anunciar um devaneio nestes moldes. Depois, a coisa melhora; quero dizer, o personagem principal, Coleman Silk, professor universitário obrigado a aposentar-se após um microescândalo que demonstra bem a tendência americana para gritar FOGO à vista de um fósforo, anda mesmo metido com uma mulher mais nova; e a história de vida dessa mulher é no mínimo trágica; e os capítulos sobre o ex-marido da dita amante oferecem um bom olhar sobre a PTSD; e o Roth escreve bem, pronto! Mas no final, quando fechei o livro e o arrumei na estante, o que ficou foi outra tentativa falhada de desenvolver uma premissa rocambolesca. É que Silk guarda um segredo fantástico: é um preto que toda a vida se fingiu branco.

   Ignorei as pistas até ao limite do razoável; até chegar ao ponto em que, se não percebesse que Silk era um preto a fingir que é branco, arruinaria toda a experiência. Eu não queria acreditar naquilo. Ainda hoje (li o livro em Maio), quando a saudação matinal à porcelana demora mais que o normal, ponho-me a pensar naquele livro que li, onde há um preto que se alista na marinha como branco, e daí segue com a sua vida assumindo uma identidade caucasiana, sem ninguém desconfiar. Percebo o que leva Silk, nos anos 40, a cortar os laços com a família, a rejeitar a sua herança; infelizmente,  percebo-o melhor ainda à luz daquilo que é a realidade atual da população afro-americana. Uma das minhas críticas ao Plot Against America relacionava-se com o esforço de comparar as dificuldades da comunidade judaica norte-americana com as de outros grupos, especialmente os negros. Aqui, Roth tenta redimir-se, mas o retrato pareceu-me pouco genuíno. E a abordagem ao tema é um bocado idiota: não consigo compreender como é que um preto passa por um branco (sem o Efeito Michael Jackson). Praticamente falando. Expliquem-me!

   Claro que o livro não é apenas sobre conflitos raciais, mas é deles que deriva o terrível segredo prometido pelo parágrafo nas costas do livro, logo desempenham um papel importante na obra. E, mais uma vez, não fiquei impressionada. Desta vez, no entanto, seria exagerado dizer que o Roth é sobrevalorizado: eu é que não sinto qualquer empatia por aquilo que ele escreve. É tudo muito bem escrito, mas vazio, incompleto. Não me diz nada. Leio-o como se lesse um manual, com mais atenção à técnica que ás emoções. Mas pode ser que ainda leia mais alguma obra dele. Se tiver uma boa dose de cenas marotas. E se ma oferecerem. Com uma dedicatória fofinha.